The Third Nipple
20040324
O que interessa

Ela abria avidamente aquele pote de geléia de damasco.
Ele pensava que era uma das poucas coisas em comum entre as mulheres que teve: todas elas amavam frutas secas.
O pote era de geléia, não de frutas, está bem, mas todas elas gostavam de damascos, ameixas, uvas passas. Uvas mortas. Múmias de uvas, como dizia uma delas.
Ela metia a colher com um brilho nos olhos. Ele reconhecia o brilho. Ele se perdia naquela fome toda. Todas as suas mulheres eram famintas. Lembrou-se de anotar essas coisas para conversar com o analista: existe um padrão reconhecível nas mulheres da sua vida?
Lembrou-se instantaneamente que não iria anotar porcaria nenhuma. E que o analista ia perguntar alguma coisa desimportante. E ele nunca iria lembrar das coisas que queria conversar.
— O que cê tá olhando?
— Você.
Despediu-se e saiu para o trabalho. Pensou em desenhos animados e riu-se: se ele fosse um homem das cavernas, armaria um laço com damascos no centro. Para pegar mulheres que lhe agradassem.

posted by Y. Nishi 3/24/2004 11:14:15 PM [edit]

20030408

Finis

Tirante aquela noite em que nós choramos, juntos, aquela noite, lembra? Aquele pós-coito incômodo, os dois se olhando, a certeza de que não restava mais nada. Mais nada.
Exceto aquela noite, quando estivemos juntos?
Nunca estivemos tão próximos. A distância evaporara "como as lágrimas", você diria. Naquela noite nós fizemos tudo, tudo o que nunca tivemos coragem de fazer em anos. Arrastamos a relação por anos até chegar ali. E ali nós nos conhecemos, enfim, naquela que sabíamos nossa despedida. A última vez. A derradeira.
Não iríamos mais nos ver, esse era o trato. De alguma forma nós sabíamos que o que havia acontecido ali tinha sido um erro. Mas era a coroação de erros sucessivos. Anos, repito. E aquilo, que foi liberador, que foi catártico, foi também a constatação do fim.
Ainda não nos vimos. A promessa é difícil de manter. Estávamos viciados. Tabaco, morfina. "Como é que eu vou viver?", e eu disse que você iria ficar melhor que eu. E você soube que era verdade.
Nunca mais chorei, sabia? Nunca mais.

Nem quando você morreu.

posted by Y. Nishi 4/8/2003 10:09:58 PM [edit]

20021008

Cemitério de elefantes

Ele voltava do trabalho sempre pela mesma rua, dia após dia, já há trinta anos. Podia ver a mudança dos arredores. O trajeto nunca lhe pareceu muito longo: quatorze quarteirões palmilhados em sentidos opostos, duas vezes ao dia, sempre no mesmo horário, sempre com a mesma diligência, sempre com a mesma atenção.
Passado um tempo, os buracos lhe eram conhecidos, e a vida deles passaram a lhe interessar. Quando um novo se abria, havia uma pequena comemoração em seu íntimo — ele não se lembrava de ter algum dia considerado os buracos do caminho possíveis problemas para as pessoas, conhecia-os tão bem que nunca iria tropeçar. Ninguém iria. Olhar o buraco aumentar de diâmetro ou ser tapado, juntar-se a outras cavidades em crateras além do aceitável; observar a ação do tempo e das intempéries (qual buraco se alargava com a chuva, com a seca, com o vento)…
Não só os buracos: as fachadas eram coisas vivas e mudavam de acordo com os moradores, algumas com as épocas do ano, algumas com a mudança de ramo; as lojas, essas se abriam e fechavam, tal qual os buracos.
Mas ele não via as pessoas. Por vinte anos, não trocou mais que meia dúzia de palavras naquele trajeto, e sempre por ter sido interpelado. Meia dúzia de momentos excruciantes que, não durando mais de um minuto, pareciam sugar-lhe os anos.
Havia descoberto um meio de se tornar invisível, de se misturar às fachadas, aos buracos. Sabia andar com o olhar sempre perdido, ainda que aparentemente, sempre evitando o contato, a dar pouca ou nenhuma chance de interação.
Ele era chamado chapéu-sombrinha por causa do hábito de carregar, todo dia, um guarda-chuva, mesmo durante o inverno seco. Ainda que não soubesse, era conhecido por todos naquele caminho. Não havia pessoa nas ruas pelas quais andava que não o olhasse passar com alguma reverência. Todos o sabiam homem de bem. Menos ele. E sua mulher era também respeitada.
Ele provia, sua mulher abastecia. Era um trato natural que lhe permitia sequer parar para comprar algo. Sua mulher tentou duas ou
três vezes lhe pedir para passar em qualquer lugar e trazer qualquer coisa. Por qualquer motivo, ele sempre esquecia. Ela o conhecia, e não precisou mais que essa terceira vez para desistir. Ele sempre lhe foi grato, muito embora nunca o tenha dito.

***

Naquela manhã de novembro, há um ano, ele parou de repente numa esquina, ergueu os olhos e decidiu não ir para o trabalho. Andou meio quarteirão numa direção diferente, até um ponto de ônibus, cambaleante com a emoção, sentindo-se tonto, inebriado. Encostou no poste e fez sinal sem ver o nome da linha. Subiu e perguntou ao cobrador o quanto deveria pagar. Displicente, o cobrador apontou com o dedão a placa atrás de si. Ele pagou a tarifa, passou pela catraca e sentou-se no banco alto, olhando as pessoas e os bancos vazios, e procurando buracos no chão do ônibus.
Sorriu, abria a janela e deixou o ar sujo bater-lhe na face. Respirou fundo e olhou o caminho, as ruas diferentes, as lojas sempre iguais. O ônibus seguia por ruas estreitas e subidas; passava defronte a parques e cruzava pontes sobre rios. Ele sentiu que poderia ficar ali para sempre, deixar-se levar. Tantos rostos novos, tantas ruas outras. Tantos buracos no mundo. Um mundo de buracos.
Mas os rostos… As faces que lhe faziam lembrar de cada uma das pessoas que viu nascer, que viu envelhecer naquele pequeno trajeto que era seu mundo. Os rostos, as faces, as caras de tantas pessoas que eram o mundo, que pulavam os buracos, que mudavam os caminhos, que abriam e fechavam as lojas e mudavam-lhes as fachadas.
Cansado pela excitação, sentiu-se relaxar e os olhos pesarem.

***

Ao ser sacudido pelo cobrador de ar indiferente, foi informado que deveria deixar o ônibus, que era aquele o ponto final.
E agora, pensou consigo, como voltar para casa?
Andou. Andou alguns minutos procurando no céu algum sinal, algum direcionamento e, achando ter entendido aquele mapa pontilhado, seguiu mais um pouco até chegar a um pequeno parque.
Sentou-se num banco e suspirou. Tirou o chapéu e, prestes a colocá-lo ao seu lado, notou que o gramado tinha uma miríade de chapéus e sombrinhas e guarda-chuvas. Um misto de angústia e medo lhe invadiu. Ele baixou a cabeça e sorriu. Arremessou ambos no gramado: o medo e a angústia, junto aos outros chapéus e sombrinhas e se recostou, ainda sorrindo.
Nunca mais foi visto.

posted by Y. Nishi 10/8/2002 04:28:30 PM [edit]

20020513

Decavê (03)

— Eu não entendo o Pedro, Alaor.
Alaor sorri. Essa conversa não é nova, e vai durar um tempo.
— Amar uma pessoa não é o bastante, sabe, Alaor, nunca foi; eu já perdi essa inocência há tempos. Mas eu não entendo o Doca.
— Aninha, você quer mesmo ter essa conversa?
— Ele é doce, ele parece ser o homem ideal…
— Eu não namoraria o Doca.
— Por quê?
— Porque ele não sabe quem ele é, ele não sabe o que ele quer… Porque ele ainda não cresceu, ele ainda é meio moleque… Olha, Ana, eu não preciso te dizer essas coisas. Você sabe disso tudo.
— Sei. Mas ele é tudo o que eu sempre sonhei num homem, Alaor. Ele é romântico, gentil, educado, cozinha bem, é bom de cama. Ele é responsável, Alaor, competente. Todo emprego que ele teve ele se deu bem…
— E não parou em nenhum. Aninha, Aninha. Meu irmão é um dos caras mais legais que eu conheço. Apesar de fumar. — Ana Clara sorri. — Mas esse não é o único defeito dele. O Pedro ainda não superou a morte do papai. Ele está perdido, Ana, e eu achei que você seria a salvação dele. Ou algo próximo disso.
— Pega o adoçante pra mim.
— O Pedro tem uma certa, digamos, um certo recalque. Ele acha que nunca vai chegar ao meu nível intelectual — o que é uma grande besteira. ele é um garoto brilhante, e sabe mais do que acha que sabe. Mas o que ele não sabe é que ele tem de ser ele mesmo.
— Você não é o pai dele…
— Mesmo que eu tenha tentado, de certa forma, não sou. Mas é mais que isso, Ana. É... Ele já te contou da Renata…
— Já. Eu odeio essa mulher.
— Haha. Aninha, não tem porque. É passado. Se ele te diz que é passado, pode acrditar nele. A Renata, Aninha, era a mulher da vida dele, como você é a mulher da vida dele agora. E a Renata encheu o saco. Pura e simplesmente. E sabe por que?
— Porque ele cansou dela primeiro, a relação foi esfriando…
— Não. Um ano depois da Renata deixar o Pedro ele ainda era apaixonado por ela. Ela não agüentou a indecisão do Pedro. A inconsistência. Entende?
— Hm. Eu sei como ela se sentia.
— É o seguinte. Até parece que eu não quero que o Pedro fique com você. Não é isso. Eu adoro você, Ana, e você sabe o quanto eu gosto do Doca. Achei que você seria a salvação para ele. Mas eu me enganei. Ele te ama muito, Ana, mas você vai desistir dele logo. Eu sei. Já vi isso acontecer. E ele vai sofrer de novo, mas não vai aprender, de novo.
— Por que ele não consegue se decidir? Por que ele não se concentra? Por que ele não enxerga que está me afastando?
— Porque ele é um cara bom. Então ele faz tudo com boas intenções. O problema de ser bonzinho é achar que você sempre está fazendo o bem. O que é uma besteira sem tamanho. É por isso que ele sempre termina sozinho. Sempre leva o pé. Porque ele não consegue, mesmo depois, se emendar.
Alaor apaga o cigarro, olha para os sapatos. Levanta os olhos até encontrar os de Ana Clara, visivelmente perturbados. O café esfria com calma.
— O Pedro enxerga as besteiras que fez, Ana. Até consegue, depois da dor, ver o que fez de errado. Mas é essa certeza dele que mata. Na hora de fazer ele não tem dúvidas de que está fazendo o correto. Antes sim, antes ele é o poço de questionamentos filosóficos, a indecisão personificada, o reticente contumaz.
— Mas ele aprende com os erros?
— O Pedro não é idiota, Ana!
— Não é.
— Mas sempre há novos erros…
— Sempre.
Ana Clara olha em volta, procura alguém conhecido, procura alguma coisa para descansar os olhos, olhos cansados. "Os Olhos Cansados de Ana Clara" daria um bom título de alguma coisa, mas ela não quer pensar que coisa seria.
— "Os Olhos Marejados de Ana Clara", ela pensa alto
— Ana, eu não tenho que te dizer o que fazer. E eu não tenho dúvida que você gosta do Pedro. Mas eu vou te dizer o que eu me digo todo dia: va dove ti porta il cuore.
— Eu não quero que ele sofra.
— Não adianta querer.
— Droga, Alaor. Que merda.
— Ana, você já decidiu e não tem coragem. Isso me irrita.
— Não, Alaor, eu não decidi. Eu ainda acho que posso mudar o Doca.
— Ledo engano. Mais que isso: atitude errada. Você não tem de mudar ninguém. Se você quer o Pedro, tem de aceitá-lo, aprender o que quer nele e o que não quer. Ele vai mudar, aos poucos, mas vai mudar. Pode mudar para um lado que você não quer, entretanto. O Pedro, uma vez, numa conversa que tivemos, disse que a mulher ideal tem todos os defeitos com os quais ele sempre sonhou. Foi um dos melhores insights dele.
— Alguém com os defeitos com os quais você consegue conviver, mas só com esses.
— Exato. Eu não acredito em casais perfeitos. Eu não acredito no homem da minha vida. Mas o Pedro acredita, e ele sempre vai achar que achou. Hm, você é a mulher da vida dele, esqueceu? O problema é que ele não vive pelas coisas que fala. Ele vive pelo que sente. Só que o coração é mentiroso, Ana. Mentiroso e medroso.
— Para, Alaor.
— Paro, Ana.
— Quer alguma coisa?
— Um curso de história em Bolonha?
Ana sorri amarelo e se levanta. Vai até o balcão e pede outro capuccino. Alaor acende outro cigarro e ajeita a gola da camisa. Ana volta com os olhos ainda mais vermelhos. Alaor começa a falar das aulas e de particularidades de adolescentes. Consegue um sorriso e um riso abafado e se dá por satisfeito. O bagel esfriou, o café perdeu o charme. Ana Clara mais olha o capuccino que o bebe.
Eles resolvem ir. Alaor dá uma desculpa qualquer, como corrigir provas. Ana Clara diz que tem de comprar qualquer coisa importante como uma vela de citronela. Saem para o frio de São Paulo e trocam beijos.
— As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant é um bom filme. Eu recomendo.
— Eu te odeio. — diz Ana Clara sorrindo.
— Eu também te amo.


posted by Y. Nishi 5/13/2002 12:09:08 AM [edit]

20020512

Por causa de um beijo

Eu finjo que não vejo; eu fujo sem parar
Da tua luz, do luar
Da vida que não passa de promessa
Da coisa que não sacia nem amansa
Eu peço outra vez
Que não pare, que não vá
Que não me deixe, de novo, errar
Mas sou eu quem já não sabe
Já não pensa, já não sente
Sou eu que insisto
Que não existo
Que fui, pra não voltar
Era só um beijo
Não era pra tanto
Era só

posted by Y. Nishi 5/12/2002 10:55:21 PM [edit]

20020429

Requiem

Manuela bebia, bebia, er, bem. Bebia desde os dez anos, quando o pai, italianão, liberou o vinho nas refeições. A adolescência de Manuela foi primorosa em termos de porres. Voltar para casa carregada pelos amigos, dentre os quais eu me incluía, era normal. Ninguém bebia mais que Manuela.
Manuela me ensinou a beber. "Esse whysky não, que é uma merda. Dá dor de cabeça." Copo firme, pernas nem tanto. Sempre que eu saía com Manu ela dava show. Às vezes cantava, aquela voz desafinada, aquele "jeito" para a coisa. Eu achava graça, cantava junto, baixinho, olhando para ela no fundo dos olhos, incentivando. "Você é o marido perfeito."
Sim, eu me casei com ela.
Cerveja, para Manu, era a pior bebida do mundo. "Cerveja não embebeda, cerveja engorda. Só vale a pena quando você está sem grana, meu amor." Eu aquiescia, fazia notas mentais, enquanto ela me olhava de cima, desaprovando. O problema todo é que eu não bebia. Manuela achava que eu era a pessoa mais chata do mundo, e bebia para que eu ficasse interessante. Meus tratados filosóficos e digressões teológicas ficavam interessantíssimos, minha retórica melhorava muito. Nós só nos dávamos bem, enfim, quando Manuela estava bêbada. Mas ela disfarçava bem. Nunca tivemos uma briga sequer. "As pessoas bêbadas devem ser muito chatas para quem não bebe, não é, meu bem?"
Mas Manuela, depois de alguns vexames, copos quebrados, hematomas nos joelhos e bofetadas na minha cara, decidiu parar de beber, frustrada, talvez, pela minha abstinência. Abstinência, na verdade, causada pela minha total incapacidade de beber o suficiente. Dois copos de qualquer coisa, uma dose de conhaque que fosse, e eu ficava vermelho e enjoado, incapaz de beber mais.
Pois Manuela decidiu parar de beber. Entrou para a ginástica e quis até parar de fumar "Só cinco cigarros por dia, meu querido, quem diria?" Manuela fez progressos, ganhou um prêmio desses de publicidade, tornou-se a redatora mais bem paga da agência. Continuava a sair com os colegas (com marido a tiracolo), e bebia coca-cola. Light. Com gelo e limão! Foi quando seus amigos passaram a se tornar chatos, quando ela começou a detestá-los, achar todos fúteis e sem graça. Ela se agarrava a mim e pedia que eu falasse, falasse sem parar. Qualquer assunto servia, visto que eu era incapaz de discorrer sobre futebol ou carros, a não ser que fosse para tecer comentários antropológicos.
Manuela parou de beber, parou de fumar, ficou magra e foi promovida a Chief Creative Director ou coisa que o valha; e começou a colecionar obras de arte.
No ano passado, Manuela se separou de mim, sem dar explicações maiores. Dois meses depois, mudou-se para Nova Iorque, para trabalhar na filial da agência e ganhou mais uns prêmios. "Os" prêmios. Todos eles.
Ontem recebi a notícia da sua morte. Manuela pulou da ponte do Brooklin. Descobri que ainda a amava. Amo. À Manuela, a única homenagem decente é este meu primeiro porre. Ainda que isso me mate.

posted by Y. Nishi 4/29/2002 02:30:51 AM [edit]

20020225

Despedida

Faltou dizer do mar
Faltou falar que já não mais
Tudo ou nada, irmão
É verdade, querida
Já é hora, patrão
Sou caso perdido, amiga
Deixa que faço o nó
Deixa que apago a luz
Deixa que escrevo a nota
Deixa pra faxineira
Não vale a pena arrumar
A vida?
Passa.

posted by Y. Nishi 2/25/2002 10:46:08 AM [edit]

20020219

Parole

Há que haver alguma coisa
Nessas pradarias
Que me leve a crer que o sol se põe
Que a água fria
Sabe de onde vem, sabe que vem o mar
Há que haver nessa noite imensa
Uma palavra
Qualquer.
Ar.

posted by Y. Nishi 2/19/2002 12:22:08 AM [edit]

20020218

Me deixa

Me deixa que eu sei
que o pronome tá errado
e que isso não se faz.
Mas eu não tenho o remédio
que você precisa.
Já não tenho.
Não tenho mais
acabou.
Eu usei tudo pra chegar até aqui —
e não fui longe, veja só.
Não cheguei aonde queria,
nem você.
Eu até queria ajudar
mas eu morri e virei zumbi.
Pra estrelar no filme do Baiestorf.
Então… vê se me lembra que acabou,
e que eu escrevo mal.

posted by Y. Nishi 2/18/2002 11:52:54 PM [edit]

20020123

Mista P'eo

Oi?
Aham. Eu estou falando com você.
[sorri]
Sim, com você. Eu tenho sido, hm, relapso, não? Quanto tempo faz? Algum. Sabe que eu tinha medo de não te reconhecer? É. Insano, não? Não te reconhecer. Doidera.
Mas a gente mal se vê. A gente fica aí, pensando que vai se encontrar e nunca dá certo. Nunca funciona. Eu vou até confessar que às vezes dou um jeitinho de te evitar. É sério. A gente já foi bem íntimo, eu posso dizer essas coisas para você. Acho que você entende.
Entende?
Bom.
Nada específico. Nada digno de nota. Só queria te ver. Saber de você.
Olha, desculpa por ter me afastado. Só eu sei o quanto você me ajudou, e sou grato por isso. Mas é que eu achei que era auto-suficiente. Você sabe como eu sou, pretensioso, faço as coisas sozinho sob o pretexto de "não querer incomodar ninguém". Now I know better.
Hoje mesmo eu vi seu nome num livro. Coincidência, não é? Um dos autores do livro dizia que isso se chama sincronicidade. Engraçado, também acho. Acha que devo ir te ver no Labrador? Hardly. É, viagem minha. Viagem.
Mas, e então, como anda a vida? Quando você acha que a gente vai poder conversar para valer? É, conversar aquilo tudo que a gente sabe que tem de desembuchar? Porque assim não está certo. Deveríamos fazer mais coisas juntos. Eu senti sua falta quando me separei. Quando me separei de novo também, durante a viagem. É duro admitir que o erro foi meu, mas taí. Não era você que dizia que eu era egocêntrico? Taí: eu errei.
Errei, admito, e quase já sei onde, como, quando. Quase já sei como retificar. Vai doer, bem sei, vai ser aquele perrengue. Mas eu posso mudar, não? Você sempre achou que eu podia, não me venha com essa cara. Epa! O Cínico aqui sou eu, lembra?
Pois é. Minha última tentativa. Eu, que nunca fui bom nesse negócio de escrever, agora tento por aí. Será que consigo? Não sei. Mas não custa tentar.
É, eu sei. Chavão, chavão. Mas eu aprendo. Já cheguei até aqui, não cheguei?
=)
Então tá. A gente se esbarra.

k.

posted by Y. Nishi 1/23/2002 09:48:41 PM [edit]

20011218

Decavê (02)

Pedro voltava da casa de Aninha dirigindo seu Karman Ghia, escutando Kool & the Gang e ainda pensando na namorada. Ficara de dar uma carona para Alaor até o Espaço Unibanco para o irmão ver um filme iraniano "A Flor, A Nuvem, O Abricó, coisa que o valha. Intelectualóide de merda."
Aquela briga com Aninha havia sido mais séria do que o normal. Aninha falou poucas e boas. Duas ou três deixas para acabar com tudo, se ele tivesse colhões. Não teve. Alaor subiu no carro e fez algum comentário anti-tabagista. "Vá à merda, Alaor." "Você precisa aumentar seu repertório de impropérios, Doca."
— Aliás, você não acha que um MD num Karman Ghia é muito desproposital? Você deveria arranjar um toca-fitas.
— Você não entende nada. É o contraste, Alaor, o velho e o novo, o clássico e o avant-garde! É um statment acerca da minha personalidade...
— ... Esquizofrênica...
— Não torra.
— Minto?
Pedro não respondeu. Entre as pausas para reclamar das barbeiragens alheias, ele ruminava as "verdades" que fora obrigado a ouvir.
— E a merda foi ficar quieto, ouvindo a Ana Clara falar besteira.
— Porque, obviamente, não foram besteiras. Be serious, dammit! Você não ficou quieto porque quis. Ficou quieto porque sabe que ela tem razão.
— Sério, Alaor, a última coisa que eu preciso agora...
— ... É alguém te dando tapinhas na cabeça. Eu preciso te botar no eixo, pirralho. Você sabe que está fazendo besteira, sabe que não está certo e continua. É um reincidente, como se não bastasse. Pior, um recalcitrante!
Cinco minutos de silêncio.
Uma onda de alívio atinge Pedro ao esterçar para a direita na Paulista para entrar na Augusta.
— Vem comigo, Pedro.
— Não, Alaor, não vou segurar vela.
— Você, como todo mundo, é homofóbico no fundo. O Nando é meu amigo.
— Não que eu me sinta à vontade vendo meu irmão beijando um peludo.
— Fino, isso.
— Haha, Foi só para chocar.
— De péssimo gosto. Mas é a única maneira que você consegue lidar com isso. Sendo jocoso.
— É brincadeira!
— Quod erat demonstrandum.
— Latim de cozinha.
— Que seja. Uma última coisa, Doca: você não vai ser feliz enquanto não quiser ser feliz.
— Eu...
— Resolve logo essa situação: a Aninha não merece isso.
— Eu...
— E para de achar que você é negão, carcamano.
Pedro sorri e mostra o dedo médio. Alaor sorri de volta. Pedro olha para a loira de blusa verde e cabelo preso e sai com o carro devagar, para ser notado.
Os primeiros acordes de Too Hot o fazem sorrir de novo.
— Jung, seu filho da puta.

posted by Y. Nishi 12/18/2001 09:31:17 AM [edit]

Bilhete

A Ju tinha mania de escrever em inglês. Ela achava que manjava tudo de inglês. Vivia me corrigindo e tirando uma da minha cara. A Ju tirava uma da minha cara quase todo dia. Era aquela coisa de superioridade intelectual, sabe? A Ju nem era assim tão boa de cama, mas eu tinha essa tara por aquela bunda. Anyway, eu bem que tentei, mas a Ju nunca achou que eu valesse a pena. E sempre fez questão de me dizer isso. De preferência com duas outras expressões em inglês. Aquele chavão.

Ju Chavão, eu falava. Pelas costas, claro.

Ju demorou cinco anos para me dar um pá-na-bunda. E deixou um bilhetinho.

"And then there was no more sunshine, for the 'bitch who were pestering you' is long gone and she took your will with her. No, really, it's not like you've got something to celebrate.
"Anyway, you keep things going until there's no more turning back or tunring away. Then you blame yourself (indeed reasonably) and do nothing to change or to better the situation. It's almost like if you take pleasure in being miserable. Oh, yeah, for you seem to make everything worse than it is, everytime. And you complain. A lot. Oh, how I'm miserable, oh, how my heart hurts, oh how the world treats me, oh, what have I done to deserve this, oh, nobody loves me. Fuck, you don't love yourself. You panic at the sight of happiness.
"Oh, but there's more. All you do is daydream about changes, magical changes in your life that you know will never happen. Basically, you have the emotional maturity of a 12-year old boy.
"In fact, you're a control freak and a low-life manipulator. And you're an emotional blackmailer, You've got to have people around just to hear how you're good, how you're intelligent, how hot you are. It all boils down to your humongous ego. Maybe you even let people down to get attention. You're a fucking emotional black hole.
"Maybe you really shoulda kill yourself."

Ju, eu te amo, porra.

posted by Y. Nishi 12/18/2001 09:18:24 AM [edit]

20010801

Santarém

Cessa a luz, cessa a vontade de sorrir
da luz
nasce o desejo, o ensejo de um querer
que é miúdo,
que é mirrado e que embai
porque forte
vede a luz. a luz não se alcança
à luz, se lhe deixa incidir
ah, trespassar (se tens sorte)

tento lembrar que sorri, que pude
tudo.
tento saber da vida o que me reserva
olhos voltados para o azul
que é distante
é enlevo
sou ennui

mas se o azul me redimirá
o fogo me perde
assim

posted by Y. Nishi 8/1/2001 08:20:37 AM [edit]

20010723

Decavê (01)

"Acho que nunca mais vou conseguir dormir. Não enquanto não souber quem eu realmente sou."

Pedro viajava, novamente, olhando as luzes da cidade imensa. Não importava por onde andasse, não havia cidade maior que esta. Não havia cidade menor que esta.

Lembrava Pessoa e olhava a cidade. Pensava no rio sujo: "Não é o Tejo, com certeza, lá isso não é."

— Alaor! Ô Alaor, qual é mesmo o nome do Empurra-empurra?

"Monumento às Bandeiras. Porra, esse Alaor responde tudo."

Mais uma vez ele estava aqui, com a consciência pesada, mais um coração partido, mais uma prova da sua ineptude ("Preciso checar isso com o Alaor, será que é ineptude mesmo?") em relacionamentos. "Mais uma vez sozinho, na cidade suja." Quase ri com a piada.

"Quantas pessoas ririam com essa piada?"

Achava que era mesmo esse o problema com as pessoas. Que faltava cultura, que faltava sustança. Que não havia mais pessoas como o Alaor.

— Ô Alaor, se eu fosse viado e você não fosse meu irmão, eu te pedia em namoro!

"Ele nem responde, o viado. Pelo menos ele sabe quem ele é. E eu fico aqui nessa punheta de dor e sofrimento e de não conseguir dizer o que sinto."

Pensava na Aninha, que há uma semana o deixara. "A Aninha também sabe quem é. Pô, tão pirralha, a Aninha, e sabe mais da vida que eu."

— Pragmática até a medula.

Alaor resmunga.

— Eu disse que a Aninha é pragmática até a medula! — berra.

"'Você é que não sabe o que quer da vida', vai à merda, pensa que eu não sei? Esse é o meu problema: eu sei quais são os meus defeitos. E já me disseram mais de quinhentas vezes o que eu tenho de fazer. Pensa que é fácil?"

Solta mais uma baforada olhando a fumaça se misturar à poluição.

"Se fosse fácil eu não estava na merda de novo."

Olha o Shakespeare na estante, esperando ser lido.

"Esse cara deve ser o mais citado da história. Aliás, tudo hoje em dia tem me parecido xerox do xerox do xerox. Ninguém vive mais, todo mundo copia frase de novela, ou de seriado. De novela, com mil colhões!"

— Ô, Alaor, quem disse aquela frase das pessoas cuja vida é uma citação?

"Oscar Wilde. Porra, esse Alaor sabe tudo!"

— Alaor, diz aí, quem eu sou?

posted by Y. Nishi 7/23/2001 11:11:48 AM [edit]

20010205

Intro

Há momentos na vida de uma pessoa em que tudo parece ser fútil. Nada do que você faça tem qualquer valor. É como se você se levantasse mais cedo e visse seu pai e mãe conversando sobre quem ficará com os filhos. Ou quando aquela pessoa lhe diz que você, infelizmente, não é a mulher/homem da vida dele/dela. Ou quando você visita seu avô no hospital e não sabe onde foi parar aquela pessoa doce que sabia dizer algo, em qualquer situação, que dava sentido a qualquer coisa e por que colocaram esse autômato insano no lugar dele.
Ou, talvez, você estivesse sentado, nu, no sofá da sala, no meio da noite, e se sentiu aterrorizado ao entender os eventos que culminaram na sua vida como ela é hoje — a esperança da infância, os amigos perdidos, corações partidos, projetos abandonados —, tudo em vão.

Nesses momentos, muitos procuram distração ou conforto com alguma forma chã de apaziguar essa sensação. Ver o filme indicado ao Oscar, ligar a TV ou comer um doce são ações baseadas na busca de sensações frívolas ou, preferencialmente (muito embora raro), de uma condescendente reação de solidariedade para com os próprios sentimentos, seja através de emoções pontuais, seja por meio de princípios filsóficos universais.

Caso a saída preferencial seja o entretenimento, pode-se encontrar dois tipos de autores, que produzem dois tipos distintos de obras. O primeiro tipo, mais preocupado com cifras, produz um "divertimento" destinado a entreter. O segundo tipo, mais preocupado com o buzílis da vida em si, quer fazer com que todo o mundo se sinta tão mal quanto ele mesmo.
Destarte, concluímos que essa busca da verdade na arte é infrutífera, e que deve ser deixada para os menos inteligentes, ou para os feios, ou para os chatos, pois esses não têm mesmo nada melhor para fazer. Além do que, é demodée ficar sentindo pena de si mesmo e esses "tempos difíceis" são passageiros e, quando não são, ainda resta, para a maioria de nós, ainda, o suicídio.
As pessoas que estão lendo essa página, entretanto, são, em sua maioria, claramente atraentes, sexies, inteligentes e charmosas, para as quais depressão é uma pequena distração em suas vidas gloriosas ou, quando muito, um incômodo tratável com medicamentos caros.

Por esse motivo, sabemos que quem lê esta página busca emoções baratas, conclusões previsíveis e que, afinal, estão lendo um blogger(!), na Internet(!!), de onde se sabe que nada mais profundo que um pires pode ser criado.

Bem-vindo.

(texto livremente adaptado da introdução de Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth, de Chris Ware)
posted by Y. Nishi 2/5/2001 02:23:43 PM [edit]

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