20020919

Ela abria avidamente aquele pote de geléia de damasco.
Ele pensava que era uma das poucas coisas em comum entre as mulheres que teve: todas elas amavam frutas secas.
O pote era de geléia, não de frutas, está bem, mas todas elas gostavam de damascos, ameixas, uvas passas. Uvas mortas. Múmias de uvas, como dizia uma delas.
Ela metia a colher com um brilho nos olhos. Ele reconhecia o brilho. Ele se perdia naquela fome toda. Todas as suas mulheres eram famintas. Lembrou-se de anotar essas coisas para conversar com o analista: existe um padrão reconhecível nas mulheres da sua vida?
Lembrou-se instantaneamente que não iria anotar porcaria nenhuma. E que o analista ia perguntar alguma coisa desimportante. E ele nunca iria lembrar das coisas que queria conversar.
– O que cê tá olhando?
– Você.
Despediu-se e saiu para o trabalho. Pensou em desenhos animados e riu-se: se ele fosse um homem das cavernas, armaria um laço com damascos no centro. Para pegar mulheres que lhe agradassem.

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