20020925

Então ela me diz: você não sabe o que quer. A frase tem um quê de déja-vu. Hm. Tá bem, admito que não é a primeira vez que a ouço. Dela, a primeira, mas tantas outras mulheres me disseram. Não me faço de rogado, dessa vez, não vou deixar barato:
— Claro que sei.
— Então me diz.
Alguns instantes de silêncio. Porra, é difícil responder isso? Sei lá, só sei que minha cabeça está tão cheia que não consigo pensar em nada.
— Quero ser feliz.
Tééééé. Resposta errada, imbecil. Tanta forma inteligente de responder e isso é o que você consegue grunhir. A mina é inteligente pracaray e você me solta uma dessa? "Quero ser feliz"? Se ela for embora, já sabe que foi incompetência.
Tarde demais, lembro do que quero. Ou o que acho que quero, ou o que quero hoje. Ou o que me convenço que quero, no final das contas, não importa mesmo, ela não vai mais ouvir.
´Tão tá, não necessariamente nessa ordem:
- Quero você, mas quero só pra mim.
- Quero aprender a tocar esse treco direito. De verdade. Compor. Improvisar. Fazer música.
- Quero voltar a escrever e deixar de escrever como um autômato.
- Quero trabalhar como cozinheiro, num restaurante decente, que permita que eu crie.
- Quero voltar a fotografar.
- Quero te fazer feliz.

É lógico que eu tinha de ser brega no começo e no final. Eu sou brega; aquele tipo de romântico de quinta. Corny. Démodé.
E atrasado.
Será que ela me perdoa?

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