20020923

Um suave desespero quase passa despercebido durante a tarde. Quase. A angústia fecha sua garganta sem que você saiba a causa, ou se motivo há. Mas sabe-se, sempre: não é o tipo da coisa que se resolva fechando os olhos.
Não, fechar os olhos alimenta a angústia.
Você poderia abandonar tudo nessa hora. Poderia perder tudo, se não fosse a consciência da própria fraqueza. O medo de fraquejar no dia seguinte.
O dólar vai a R$ 3,60.
Seus sonhos, os poucos que você ainda guarda, parecem ficar mais afastados. O sacrifício (é isso que você faz hoje, agüentando tudo, não é?), inevitável.
O desespero, a desilusão, a constatação da impossibilidade vira certeza por dois longos segundos. Um par de olhos verdes tira você do estupor paralizante e lhe devolve o látego. E você volta ao trabalho, brigando contra tudo que acredita por algo em que não acredita para lhe dar algo em que quer acreditar.
Você reza por uma explosão, uma perna quebrada, uma gripe. Por dois dias de cama, por seis números na loteria, por uma intervenção divina. Você clama por inteligência, por razão, por um susto que acorde todo mundo. Ou por um ataque nuclear a cinco capitais.
Você guarda mais um pouco e aguarda outro tanto, sabendo que vai mudar. Um dia, tudo vai mudar. E espera sem certezas, sem convicções, sem saber o que fazer. E, todavia, fazendo: seguindo planos frágeis, buscando equilíbrio onde há tensão. E não ri mais. Não chora mais.

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