20021022

Quem sempre diz a verdade, acaba sendo pego em flagrante.

Mentira tem perna curta. Mesmo mentira feita para proteger. Não protege. Eu minto bastante para mim e posso falar de cátedra: mentira corrói, desgasta, deixa a gente cínico, cético com tudo.
Mentira corrói quem mente, que não dorme do mesmo jeito; a não ser esquizofrênico que não sabe que mentiu. Mentira deixa a vida mais perigosa, mais emocionante. É claro que há mentiras que você se diz para que a coisa fique tranqüila, para não enxergar o que não interessa. Mas acho que a maioria mente mesmo para sentir um friozinho, um medinho.
"Ai, se ele me descobre."
"Ai, se ela sabe…"
Há uma outra corrente, que diz que a mentira serve para evitar confrontos, evitar que as coisas se resolvam de vez. Talvez as coisas bem resolvidas não tenham graça, mas a gente nunca vai saber porque insiste em virar o rosto. E ainda há quem não queira aceitar a verdade e veja mentira em tudo. Quem fuja pelo outro lado: tudo poderia ser resolvido, mas o estado de tensão parece mais, sei lá, estimulante. Então a outra pessoa só pode estar mentindo.
O problema da mentira é que ela gera a necessidade de mais mentira, e de um grande esforço mental. Criatividade, memória, coerência. Grandes mentirosos são pessoas de se admirar. Cérebros desenvolvidos. Pensando assim, mentir é também questão de soberba, de orgulho.
Não consigo imaginar uma vida só de mentiras, assim como seria impossível dizer somente a verdade. Diógenes vai morrer e a lanterna não se apagará.
No final das contas, a mentira é uma forma de se proteger, de negar-se, de deixar para lá. Mentir é necessário para manter qualquer merdinha de vida que se tenha conquistado. Mentir, no final das contas, nos impede de crescer, de ir além — porque, passado um certo nível, você vive das suas mentiras, para as suas mentiras e por meio delas. E começa a viver a mentira.

Acho que já está na hora de parar.
Já são horas. Tem mais vida por aí.

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