20030124

Às vezes, só às vezes, eu queria ser burro. Porta mesmo.
Só muito de vez em quando, eu queria ser daqueles ogros machistas e insensíveis. Alheios a tudo que não lhes diz respeito, ou seja, a tudo que não lhes seja fonte de prazer raso.
Às vezes, ainda que raramente, eu podia ser diretor de banco, traficante de crack, padre. Podia ser mau, mau mesmo, frio E calculista. E pisar em pessoas, rindo risos de vilão, cofiando bigodes e alisando o bicho de estimação.
Esporadicamente me vem essa vontade de ser incapaz de amar.

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