20060709

Seco

Seco, sem a ajuda do acento diferencial. Seco, desidratado. Gasto, puído. Exaurido.
Levou minha fé, e minha falta de fé. E eu nem sabia que fé ainda havia. Usou meus anos, empenhou as horas que eu ainda fazia, de teimoso, de sarrista. Os olhos estão secos, também, e cansados, ardendo, pedindo choro. Ou chuva.
Ainda que eu discorresse longas páginas, cortasse e fizesse uma rabiola, ainda assim ninguém veria. Recuso-me a dizer que fui taiado. Deixo as gentes com pontos-de-interrogação na ponta do nariz. Afinal, ainda rio, desde que disfarçadamente.
Não. Tenho milhares de nãos a distribuir hoje, e são tantos que duram até o final da semana. Peço calma aí atrás, que a fila é só para quem pegou senha. Quem não pegou senha vai ter de se contentar com meias furadas e meias-verdades. Eu minto assim como bato: só quando me pedem.
Peguei tudo aquilo e guardei, estou esperando a vazante para jogar fora, ou plantar. Vai saber. Eu poderia até simpatizar com a idéia de enterrar sonhos em casarões abandonados, escombros de vontades e vidas de supermercado. É um truque milenar de tirar de onde parece que já não há mais. É uma técnica de se encontrar assoviando na rua, no frio, sorrindo porque não há mesmo do que sorrir (nem sobre o que chorar), nesse meio de caminho que, de neblina pesada, não me deixa ver fim. Então, aproveita-se a viagem, que são bonitos os canteiros de flores de tatuagens e promessas inventadas de longas noites de delírios e risos à saciedade. E tomo esses textos fictícios de romances nunca escritos para fazer toda vez uma cena de perder juízos e ganhar êxtases que ficará na memória de gerações. Lunático, talvez, mas fazendo música com corações de pele doce e delicada: porcelana de Mulher-Lua para sempre na ponta dos dedos, desde aquele dia em que fui o mundo.
Tudo para jogar ao vento essas décadas de invencionices.
Intenso, me diz você. E ela também me diz intenso. E aqueloutra.
Que seja, mas nunca fui debalde.
Seco. E por isso peço um brinde. Aos amigos ausentes, aos amores perdidos, e que cada um me dê aquilo que acredita ser meu.

1 Comments:

ADILSON said...

SIMPLESMENTE ESPETACULAR .

20/7/06 18:42  

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