20060702

Tudo o que você não queria saber do meu sábado

Carro de som anuncia o circo, ruidoso no barulhento Largo do Limão. Não o vejo, preso ao Whitman. Vejo a minha infância. Quando criança, era criança. Quantas resmas de lembranças cabem num momento de distração?

Pão, manteiga, café e leite. O croque monsieur da Casa da Gula amodesta-se em "bolo de queijo e presunto", nome mais adequado à minha despretensão de não-nascido (vida em gestação) que o galicismo possível e decerto sofrível. Periferia de solicitudes e pequenos cuidados, de senhorinhas que a deus tudo imputam: a graça e a desgraça, mormente.

Respiro moroso em frente à grande vidraça que passa a vida do Limão em cinemascope (e quase-perfeito 3D). Jogo minutos aos pombos imundos e gordos enquanto espero as agulhas. A mulata bonita lança um sorriso e acaba o suco. Sorrio de volta e torno ao livro, à relva, à fuga. Quero estar longe, mas ouço Limão. Não há destinação: é um eterno interregno, um caminho, de fato. Você não verá o fim: você nunca saberá o final da sua história, só os outros. Alguém para contar a história. É imperioso ter alguém para contar.

O tempo parou uma vez, no Cartaxo. Cama de féretro, escuro, escuro, véspera de figos frescos e sotaque dos Açores. O tempo parou certa feita, no Cartaxo, no átimo de acordar e me ver morto e sepultado; e em paz. O breve segundo de morte em que o único sentido era a consciência de não ter a faculdade dos sentidos, mas ser. Um existir puro, iluminação by chance, pela compreensão do não-ser; iluminação efêmera. Guardada por seis anos. Revisitada no Limão.

Limão, Lapa, Cartaxo, Vila Mariana, Cidade Monções, Paraíso, Osasco, Brooklin, Parque Continental, Village, Rive Gauche, Ramblas, Amoreiras, Perdizes, Montjuic, Bologna, Inferno.

Via Largo da Batata.

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