Regeneração

Eu me perco um pouco a cada dia. Uma nesga por vez. Um tiquinho a cada conversa.
Um pedaço de um bom pedaço a cada beijo.
Por isso aprendi a regenerar.
Por isso cultivo a arte da abnegação.
Os pedaços que perco a cada vez não são substituíveis e, portanto, há que se inventar novas partes e funções para essas partes. A última foi asa de chaleira, bem ali, onde ficava o pâncreas. E eu ainda me pergunto por que motivo quiseram o pâncreas. Metade das pessoas que levaram pâncreas não sabem para que ele serve. Servia.
Asa de chaleira no abdômem. Poderia servir de apoio para alguma coisa. Vou pensar.
O treze de outubro levou parte da minha fleugma, que já está acabando.
A chuva que começou a cair ameaça levar uma das covinhas do rosto. Tentei enganar dizendo que não era covinha, mas ruga. Vamos ver se cola.
A mocinha, hoje, levou um nadica de modéstia, uma risada perfeita, um conselho equivocado, um fio de bigode, um passo de dança. Um azul quase perfeito.
Agora fico aqui, concentrado para fazer crescer um olhar-de-três-e-meia e colocar entre a dúvida e a malícia.

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