Libertas

Nem sequer vale a pena lembrar agora o que foi que aconteceu lá. Saber o que iniciou essa série de eventos que nos trouxe até aqui só diminuiria a mágica imanente em todo o processo. Não, nem mesmo falo do chavão de "valer mais a pena a viagem que o destino" ou qualquer outra bobagem folhetinesca do gênero. É só que parte da força da cadeia de cagadas ou golpes de sorte está no início obscuro — e lhe damos a explicação que quisermos.
Cosmogonias são boas de se brincar porque são legos conceituais e lingüísticos, no final das contas. No final da análise. No final da garrafa.
Não. Essa insistência toda de me perguntarem os porquês tem algo de sádico e eu finjo que respondo porque as pessoas humanas precisam de um mínimo de certezas. E não posso lhes dizer a verdade sem correr o risco de criar religiões ou destruir vidas. Simples e arrogante assim. Porque entender o que acontece a nosferati não é para quem ainda tem alguma esperança.
Perceba, caríssima, que eu perdi as desculpas que me dava, e a cada dia é mais difícil mentir para mim mesmo. Isso certamente vai me enlouquecer no médio prazo. No curto vai me deixar mais divertido e mais intolerante. Sem causalidade aqui, repare.
Eu pago contas, visito amigos, trepo, escrevo, cozinho, tiro o lixo, finjo simpatia, ignoro os apupos. Eu descobri que posso levar isso até o fim da vida, mas que não quero. Eu percebi que seus joguinhos são rasos e eu não os quero.
Minha terapeuta pareceu mesmo assustada quando eu lhe mostrei a liberdade que um prazo de validade pode te dar. Pela primeira vez, eu tinha resposta para todas as intervenções, porque a coisa nunca esteve tão clara. Lá pelas tantas eu tive de ouvir "Eu não sei o que dizer."
É esse o nível a que cheguei.
Liberdade.
É solitário aqui. E dá um medo desgraçado. Mas não tem saída.

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