20070103

Desafiado

Desafiado
Você não quis acreditar. Mas escutou até o fim. O que é bem mais do que se pode pedir nos dias de hoje. A multiplicação de inteligências solúveis, paralelos do café solúvel — peculiaridade do mundo pós-Google da qual já tratamos —, me dá asco. Mas você me deu dúvidas, para as quais eu tinha resposta, ainda que você não tenha ficado satisfeita. Ponto para você. Sua incredulidade te fez mais querida. Afinal, eu sempre disse que não tenho certeza de nada.
E você me colocou em cheque por diversas vezes. Algumas por causa da sua ingenuidade de ver o rei nu (mas o rei sabia-se nu, e isso não foi problema) ou de dizer um disparate que gerava toda uma possibilidade paralela — e era bem divertido fazer essas realidades ganharem corpo e testar a verossimilhança de cada uma delas. Horas…
Outras vezes, por causa da minha ingenuidade. E aí doía e eu fazia caras e bocas e baixava a cabeça e me perguntava os porquês. Por isso a Tia ainda recebe minhas visitas. Por isso eu ainda não me dei alta. Também por isso nossas conversas ainda duram para sempre. E por isso eu te chamei para mais um café antes da cirurgia.
Café, entenda. Café solúvel nunca foi, nem nunca será, café.

Ainda inventam o amor solúvel. E eu continuarei trocando por uma paçoca.

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