
Quando você perde algumas coisas, fica difícil voltar a ser o que era.
Quando você percebe que não precisa mais de nada, que não quer efetivamente mais nada, que nada mais é assim tão importante, fica difícil manter a angústia.
A angústia, nesses casos, é eliminada na urina.
E, perceba, você tem tomado diuréticos.
Dudinka. Talvez essa seja a única coisa da qual você não abriu mão. Afinal, a Dudinka deve ser conquistada, sempre.
Dudinka or die. Todo o mais é hipocrisia.
É assim fácil. Eu não preciso do CD do Zebda. Eu não preciso comer camarão. Eu não preciso beijar você. Eu não preciso desse apartamento. Eu não preciso de mais cinqüenta anos de vida. Eu não preciso, e eu deixei de querer.
Longe da apatia, esse desapego deixa o sujeito numa posição extremamente confortável, tranqüila e solitária. E livre. E contemplativa.
Sim, sofrem os textos, sofre a música, mas é porque não careço mais de
output. Talvez isso tenha me levado mais para o lado da fotografia: quando tudo perde a importância, a não ser aquela que emprestamos, tudo é novo. E exige, o novo, um novo olhar.
Então redescubro a Dudinka.
Todo dia.
Por isso me vês sorrir mais e com esse olhar perdido de apaixonado. Nada mais longe da verdade: o estado é de ausência de paixão. É o custo. Por isso me ouves dizer que amo, porque é o último resquício de humanidade nessa carcaça amarela, o meu paradoxo definitivo. O amor me impede o zen. Eu não te havia dito que amor é koan?
Pois.
E ainda vêm o amigo dizer que Dudinka é nome de coelhinha da Playboy. Deu-me até a edição para que eu vá comprar no sebo. Acho que não. Prefiro ver a Dudinka pessoalmente. Ou, como disse Pessoa, e parafraseio, que me pode dar a Dudinka que minha alma me não tenha já dado? E, se minha alma mo não pode dar, como mo dará a Dudinka, se é com a alma que verei a Dudinka, se a vir?
Dudinka, Fez, Londres, Berlim, Cracóvia, Praga. Falta pouco. Un átimo così.