20070119

Bemol

Bemol
Música é uma combinação arbitrária de ar e tempo. Ar vibrando em freqüências audíveis. Posso divagar e apontar Ballard falando da música ultrassônica, além das freqüências audíveis em seu conto "The Sound-Sweep". Mas é melhor deixar assim, já que estamos aqui fazendo um arremedo de ciência, determinemos logo esse corpus sacripantas, e o mais limitado que pudermos, como bons acadêmicos medíocres, que é para dar menos trabalho e, afinal, eu já tenho os créditos.
Tá, chega de viagem. O tempo vai recortando e limitando essa vibração toda. Determinando a duração da mesma ou a presença metrificada dos silêncios. Eixo ar. Eixo tempo. Determinar essa essência é definir exatamente o que não importa na música. Mais cartesiano e científico, menos música.
Aí música passa a ser uma dessas coisas boas para se definir pelo que não é. Ou para reduzir ao absurdo, ao gosto do freguês. Mas se eu não pude passar essas semanas sem música, e a música era uma das coisas que eu questionei se queria/precisava/era importante, e foi uma das brigas mais difíceis na batalha campal da abnegação, a música acabou por me parecer uma necessidade orgânica. Parelha de água e ar. E comida.
Mais para comida.
E aqui eu poderia começar uma digressão de decênios sobre comida, mas não vou.
Lembro de Scott McCloud definindo arte como o que o homem fazia quando o que fazia não tinha utilidade de sobrevivência, preservação ou reprodução. É inútil, é arte.
Então a música é uma inutilidade fisiológica, por assim dizer.
Cheguei em casa e a primeira coisa que fioz foi colocar um CD para tocar. Sequer liguei o computador ou fui ao banheiro. Duas semanas de hospital e a primeira coisa que eu fiz ao entrar foi colocar um CD do Coltrane (porque era o que estava à mão) para tocar. E sentei no sofá. E deixei a sala se encher de ar e de tempo e meu corpo se encher de alguma coisa que eu não sei o que é, mas que eu estava sentindo falta.
Depois de acabada a segunda música, minha mãe me olhando como se eu fosse um gato de duas cabeças, verde, de bolinhas, fui ao banheiro. Depois tomar água, essas coisas.
But beautiful, não é mesmo? Um agradinho ao esteta que eu nem sabia que morava aqui (e já me acusaram de só namorar meninas lindas).
Música.
Vinus et musica laetificant cor.
E o vinho só no meu aniversário.
E Carinhoso sai de uma tirada, 5 minutos no sofá.
Eu não tenho vergonha. Alguma.

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