Confissão

Bem quis este que aqui se prostra, virado para a Meca, que assim não fosse. Mas é forçoso admitir. E, portanto, admitamos e façamos contrição, ajolhemos no milho, açoitemo-nos em praça pública, e tentemos, uma volta mais, purgar tudo isso que não nos permite paz.
Continuam, teus olhos, a chamar-me a cada vez que eu viro a cabeça um pouco mais rápido, mormente para a direita. Aparecem, sem ser chamados, e ofuscam-me. Olhicerúlea, miserere nobis. Apiede-te de nós, sim, que não temos força para resistir-lhe.
Assomam, ainda, os furinhos nas tuas costas. Aqueles detalhes arquitetônicos que têm apenas função estética — e as mais que lhes dava sempre que neles tocava, ou que lhes dou, agora. Não há noite sem que eles me percam, imbecilizado, enlevado, atônito e sem-vergonha.
Destrói-me a curvinha. O canto da boca, a expressão maior da sua inteligência misturada à sua ingenuidade, à sua capacidade aparentemente infinita de sedução, sua tristeza que, parece, só eu vejo, seu desespero charmoso, sua sem-vergonhice contida e paradoxalmente tímida. Essa curvinha tem o péssimo hábito de ir me buscar onde quer que eu me refugie, brincando nos meus sonhos, nos meus desejos e fazendo de mim o mais brega dos mortais.
Então confesso que é provada, empiricamente, essa paixão. Improvavelmente, ela persiste. Incrivelmente, ela não arrefece. E não adianta mais fingir que ela não existe e torcer para ela ir embora sem cobrar, sem tomar o que lhe é de direito. Não. Só me resta orar. Só me resta crer. Só me resta viver, e mais um dia viver. E admitir que é melhor mesmo não falar com você. Porque o preço já passou do que permitiam minhas posses, e eu sempre pago.

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