Famélico

Não se alimentava bem desde há muito, por vontade e por experimento bio-psicológico. Percebia e registrava suas alterações de humor e de aparência. Tentava entender como aquela vida de Super size me poderia lhe render algum insight que o ajudasse a entender os processos que o levaram até onde estava e, por meio da piora premeditada da situação, entender seus limites e sua natureza.
Cada vez consumia mais e com menos substância, com menos nutrientes. Verdade seja dita, ele não se preocupava mais com o conteúdo, a aparência decidia o menu a cada noite. Após algum tempo, ele deixou de escolher, deixou de ter critério. A primeira coisa que aparecia era boa o suficiente.
Sempre cônscio de estar aviltando a si, ele não via remédio, senão alimentar a compulsão, a única coisa que parecia mexer consigo o suficiente para dar-lhe a ilusão (ou percepção) de estar vivo.
Quanto tempo ele agüentou? Toda uma vida. Todo o arremedo de vida a qual se propôs a experiência.
Hoje, jejua. Mais por fastio que por recomendação médica. Mais por tédio que por vaidade ou princípio.
Água. Ar. E alguma sociabilização.
Famélico.

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