20070119

Incorianas II

Há que se admitir a qualidade técnica e cirúrgica da equipe. Senão pelo sucesso da intervenção e pelas estatísticas favoráveis, pelo fato de que os caras conseguiram me abrir sem detonar minha tattoo. Bravíssimo!
Mas eu queria mesmo era contar do senhor, na UTI, que ficava ao meu lado, e que, certa noite (ou madrugada, o tempo na UTI segue uma passagem própria e nunca é noite no sentido de você deveria estar dormindo), começa a gritar, cada vez mais alto, até que algué lhe acuda:
— Ai, meu deus do céu! Ai, eu não agüento! Ai, eu achei que ia melhorar e estou piorando! Ai, que dor na urina! Ai, que dor na urina! Al, alguém me ajude!
Sim. Na urina.
Acordado tanto quanto me era possível com o coquetel na veia, eu torcia para alguém ir logo ver do que se tratava, e desejando sorte para descobrir onde diabos o cara estava com dor. Na bexiga? No rim? No pau? Na uretra?
A primeira a chegar foi a fisioterapeuta. Coitada. Não chegou nem perto de descobrir o motivo, desconfio que por má-vontade mesmo. Fazia o senhorzinho levantar braços e pernas e o sujeito continuava carpindo.
A enfermeira que correu ao auxílio também não fez muito mais que chamar a médica. A médica apalpou, perguntou, achei mesmo que ia mandar falar trintaetrês. Até que chegou a enfermeira mais velha, mais negra, mas grisalha, mais mãe, sei lá. Aquele tipo de enfermeira que te inspira respeito de mãe. Falou duas palavras com o velho e disse:
— Pode urinar, seu Xisipsilon.
— Mas eu vou sujar tudo aqui!
— Não vai não, vai cair tudo nesse baldinho aqui. Põe a mão lá para o senhor ver que tem um tubinho.
— É?…

Pronto. O velho mijou e a farra findou-se. O cara estava há sei lá quanto tempo segurando porque não sabia que estava com sonda (como nós todos, irmanados na prática assistida do toilete). A dor na urina, era em todo o aparato mijatório.
Imagino a cara dele quando tiraram a sonda. Uma das sensações mais esquisitas que já experimentei.

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