Incorianas
Foi assim: uma semana antes do natal, mais ou menos, tive um mal-estar e fui fazer exames. Não me deixaram sair. Fiquei internado no Incor fazendo vários outros exames, para sair de lá com cirurgia marcada: 8/1/2007.
E foi o que aconteceu. Troquei a minha válvula aórtica podre por uma novíssima iValve bovina, com direito a bluetooth e tals. Dizia que só funcionava nos States, mas está me servindo bem.
Do dia doze até ontem, dezessete, estive no quarto 6009, esperando a alta, fazendo o bom-moço e comendo até mesmo a comida da tia malcomida. Os russos dizem que não se deve confiar em cozinheiro magro. Nem em nutricionista malcomida, acrescento. Fingi tão bem que me soltaram e agora posso espalhar a maldade pelos sete mares, impune, de coração tunado e menos humano!
Boa parte das reflexões filosóficas e existencialistas ficaram onde pertencem, na vida anterior. Ciclos de 37 anos e meio, veja você. Acho mesmo que a ligação da moça, ontem, teve algo a ver com a possibilidade de dar o caso por encerrado. Mas fujo do assunto. As duas semanas (quase) no hospital.
Além de acabar o Capra e ler o Mishima, tive tempo para um Saramago, um Hesse, um Ballard, um Veríssimo (fil), um Palahniuk e uma coletânea de blogueiros. É. Eu sei. Eu sei o que é tédio. Agora sei. Nunca mais vou reclamar de comprar sapatos com a namorada.
E ficou a sensação de que devo limpar meu corpo de toda aquela comida nutritiva e balanceada de hospital. Porque a comida de hospital é pouco mais que nutritiva e balanceada. Em sua essência, ela é morna e triste. Não chego a culpar as cozinheiras, desconfio que qualquer cozinheiro subordinado a um nutricionista é um pobre miserável que ou odeia sua profissão, ou sofre desesperadamente por não poder exercê-la a contento. Mais que não respeitar os ingredientes, como quereria St. Bourdain, nutricionistas os ignoram solenemente e só os vêem em categorias como carboidratos, proteínas e fibras. Ou algo que o valha.
Desculpe o palavreado.
Mas você deve estar esperando o real motivo da minha revolta, sabendo que eu já comi pior pagando. A ele: a senhoura reduziu minha quota de café para três xícaras diárias.
Três.
Nem uma, nem duas, nunca quatro ou mais de quatro.
Três.
Três tiros de trabuco no reto dessa transcorva.
De resto, passa bem a nação gialla. Convalesço, decerto, mas com firmeza.
E foi o que aconteceu. Troquei a minha válvula aórtica podre por uma novíssima iValve bovina, com direito a bluetooth e tals. Dizia que só funcionava nos States, mas está me servindo bem.
Do dia doze até ontem, dezessete, estive no quarto 6009, esperando a alta, fazendo o bom-moço e comendo até mesmo a comida da tia malcomida. Os russos dizem que não se deve confiar em cozinheiro magro. Nem em nutricionista malcomida, acrescento. Fingi tão bem que me soltaram e agora posso espalhar a maldade pelos sete mares, impune, de coração tunado e menos humano!
Boa parte das reflexões filosóficas e existencialistas ficaram onde pertencem, na vida anterior. Ciclos de 37 anos e meio, veja você. Acho mesmo que a ligação da moça, ontem, teve algo a ver com a possibilidade de dar o caso por encerrado. Mas fujo do assunto. As duas semanas (quase) no hospital.
Além de acabar o Capra e ler o Mishima, tive tempo para um Saramago, um Hesse, um Ballard, um Veríssimo (fil), um Palahniuk e uma coletânea de blogueiros. É. Eu sei. Eu sei o que é tédio. Agora sei. Nunca mais vou reclamar de comprar sapatos com a namorada.
E ficou a sensação de que devo limpar meu corpo de toda aquela comida nutritiva e balanceada de hospital. Porque a comida de hospital é pouco mais que nutritiva e balanceada. Em sua essência, ela é morna e triste. Não chego a culpar as cozinheiras, desconfio que qualquer cozinheiro subordinado a um nutricionista é um pobre miserável que ou odeia sua profissão, ou sofre desesperadamente por não poder exercê-la a contento. Mais que não respeitar os ingredientes, como quereria St. Bourdain, nutricionistas os ignoram solenemente e só os vêem em categorias como carboidratos, proteínas e fibras. Ou algo que o valha.
Desculpe o palavreado.
Mas você deve estar esperando o real motivo da minha revolta, sabendo que eu já comi pior pagando. A ele: a senhoura reduziu minha quota de café para três xícaras diárias.
Três.
Nem uma, nem duas, nunca quatro ou mais de quatro.
Três.
Três tiros de trabuco no reto dessa transcorva.
De resto, passa bem a nação gialla. Convalesço, decerto, mas com firmeza.

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