Veritas, vanitas

Hoje eu disse a você o que eu penso. Ou comecei a dizer a você o que eu penso. Ou disse uma ou duas coisas que eu ainda não havia lhe dito antes, mas que eu pensava — nem foi assim tão dramático.
Você se assustou. Saiu correndo do trabalho, foi até a esquina me ligar. Disse-me, já ao telefone, que não entendia o que mais teria eu para falar, uma vez que eu já havia dito barbaridades e coisas, oh, tão pesadas.
Ora, meu bem, eu tenho de falar nada. Eu não tenho de falar. Eu só disse que você não agüentaria a verdade, como não agüentou o pedacinho de verdade, o que deu tempo de contar.
Você percebe o meu tamanho? Você alguma vez parou, realmente parou para me olhar e sacar que tipo de freak show eu monto, todo dia, para ver o mundo?
Não.
Percebeu que eu tentei te dar? Percebeu o que eu tentei te dar? Não. Você ainda não se deu conta do que perdeu. Tem mais de onde saiu isso, mas não é (mais) para o seu bico.
E é triste, porque você ouve. E isso é difícil hoje em dia. Você ouve, voce se incomoda. Você fica emputecida e vai para casa e pondera. Você perde tempo com essas minhas digressões que mudam no dia seguinte e eu tenho de fazer um esforço para lembrar do que mesmo que eu estava falando naquele dia… Porque você reutiliza na próxima conversa, digerido, assimilado. É bem bacana de ver.
Verdades sabor baunilha. Pamonhas de Piracicaba. Eu tenho muita fé em você e sei que você vai perceber (e eu diria que mesmo sozinha) que são coisas intercambiáveis. E não têm a ver uma com a outra.
Fica já o convite: se quiser se incomodar, apareça. Mas não ache que vai ser fácil. E você já está na idade de levar uns bofetões.

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