Adestramento

Quando você diz coisas como as de hoje, coisas que não fazem sentido, quando suas respostas não condizem com as perguntas, é aí que eu amo você mais.
Quando você me elude uma vez mais, e eu não faço mais idéia do que vai acontecer, e eu desisto solenemente, e você não me deixa fugir, é aí que eu odeio você mais.
Mas quando você me beija de volta, fazendo questão que eu saiba que eu forcei a barra, mas me beija e respira apressadamente e treme, e fecha os olhos em clara entrega de sentidos, quando você corresponde meu tesão, à revelia do discurso ensaiado em frente ao espelho, é aí que você me confunde mais.
Mas quando você me escorraça, me humilha e me desdenha, quando você é só menoscabo e contrafação, quando você me ignora e deixa migalhas de atenção para que eu não morra de inanição, é aí que eu fico mais lúcido.
Por incrível que pareça, foi hoje, no meio da troca de frases incongruentes, enquanto cada um falava uma coisa e nem eu nem você entendíamos pissiroca alguma, enquanto as palavras perdiam o sentido e só ficavam os olhares atônitos e o meu tesão porcamente disfarçado, enquanto você me perscrutava cada vez mais, tentando achar uma brecha, uma palavra, uma salvação, foi bem mesmo hoje que eu me dei conta que eu posso me ver livre de você.
Mas você não.

1 Comments:
FUÉ!
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