20070216

Alforria

Alforria
Como assim eu não posso sair? Mas desde quando isso aqui virou uma prisão?
Er, eu tenho um salvo-conduto em algum lugar, mas pode ser que quando eu troquei de calças… Mas o que eu quero entender é o porquê desse controle agora. Afinal de contas foi você mesma quem me quis fora. Foi todo um processo de despejo e tals. Eu cheguei a brigar para ficar, mas quando vi que não ia rolar eu aquiesci. Para você me fazer essa presepada agora?
Não, sério, justo agora que eu estava realmente de saída, indo embora, mala feita, contas pagas, tudo arrumado para ninguém dizer que eu deixei o lugar uma bagunça. Você até fez a porcaria da inspeção. Inspeção, vistoria, whatever!
Mas, então? POSso sair? Eu tenho que o quê? Pedir desculpas? Sério mesmo? Não, espera aí. Eu fui despejado. Eu fui escorraçado. Eu fui contrariado, eu fui abandonado, eu fui, de certa forma, traído. E eu tenho de pedir desculpas? I do not think so.
Não. No máximo eu posso tocar My funny valentine no clarinete, aceita? E veja você que eu deveria ser irredutível nessas horas, mas faço piada. Faço graça. E até tento te arrancar um sorrisinho. Mas, e aí? Está ficando tarde, você deve ter mais o que fazer além de inventar desculpas absurdas para me prender mais um pouco e um pouco mais. E cada dia é uma.
Olha, estão aqui todos os formulários, todas as autorizações, todos os relatórios, todos os carimbos, os DARFs pagos, as chaves e suas cópias. A declaração de que não vou usar seus apelidos com outrem, de que não vou dar a outras mulheres o amor que era seu. E você ainda não entendeu que isso não era mesmo possível e exigiu a declaração. Pois aí está, em três vias, reconhecidas em cartório.
E, deixa eu dizer, você nunca foi fã de documentos. Acho que foi o episódio de ter sido planilhada que fez isso contigo. Agora virou até burocrata.
Tá, tá. Sossega. Não está mais aqui quem falou. Só me deixa ir embora, vá. Se não por nada, porque você já foi bioluminescente, um dia. Porque você já foi genial e bebia vida todo dia e sorria com o corpo todo e exsudava pó de pirlimpimpim — porque aquele treco deixava a gente bem doido. Doido de não saber o tempo.
Enfim. Você já está ficando com um monte de coisas. Meu sorriso, meu assunto… Sabe? Deixa eu ficar ao menos com as coisas que você me ensinou. A não ser tão besta. A não ser tão sério. A não ser tão sabichão. Não ser medíocre nem crica nem tão bom. A não ser tão crédulo. É você acabou com o que me restava de fé. E ficou com o saca-rolhas.
Eu vou levar só o tapa-olho.
A terça-feira gorda de carnaval.
O orgasmo múltiplo.
A parede pintada com motivos japoneses.
O resto é teu.
Só me deixa ir que eu tenho hora marcada com uma amiga que quer emprestado umas coisas que você não usa mais. Vai que daqui a pouco alguém te chama e você não pode mais falar comigo, vai?
Adeus.

1 Comments:

Thayná said...

Me deixou curiosa.
Muito bom texto,
Thayná.

10/04/2007 10:07:00 AM  

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