20070221

Caminhos

Caminhos
Eu ia dizer que há dois caminhos, mas Ornette me corrigiu e disse que há muitos. Vários. Variegados. Eu pergunto onde diabos ele aprendeu a dizer "variegados", felino de merda, arremedo de Gato Felix.
Ele fica puto. Gato Felix sempre funciona. Fica puto, solta um pum e vai pra varanda, varanda que não, não tem aquelas redes protetoras dos animais e das crianças menores de seis anos.
Ornette sabe se cuidar.
Aliás sabe se cuidar melhor que eu, que fico aqui reduzindo tudo a mensuráveis entidades, porções manuseáveis de vida, quando devia era mesmo entrar na competição do toboiogurte, aberração apresentada pelo Veiga, que é pervertido sem saber.
Então, dizia Ornette, já que você aquiesce que são numerosos caminhos, pode muito bem largar essa merda que está fazendo e ir tomar sol. Ah, você não pode por causa da cicatriz, que pena.
E eu não posso sequer ameaçar esse puto de morte. Desinfeliz. Posso tirar da cara dele, no máximo. Mas ele é melhor que eu nisso, então… é contraproducente. Melhor ir cuidar da minha vida.
Mas tranco o desgramento do lado de fora, na varanda, antes de sair de casa para ver o mundo, encontrar um amigo e acabar gastando dinheiro com um Rider-Waite, que foi desenhado mesmo pela Pamela Colman Smith, coitada. Virou rodapé de verbete, a moçoila.
Depois da primeira leitura, eu me toco que Fez está mais perto um tiquinho. E que Berlim também está mais perto. E vou destrancar o Ornette e o celerado está dormindo e não se levanta quando eu abro a porta. Fica lá, olhando a lua. E me olha com desdém: vai aprender quando, ô mané?
Um dia, Ornette. Um dia.

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