Desligando

Pensava já há meses na possibilidade e agora tinha decidido: deixaria de ver cores. Daria férias permanentes aos cones. Ou eles ajudariam os bastonetes, sabe-se lá. Mas era já fato: deixaria de ver cores. Cores lhe pareciam supérfluas, esforço desnecessário, enfeites pequeno-burgueses, exageros estéticos de uma aristocracia moribunda, quase que deselegâncias. O mundo seria como o retratou Cartier-Bresson. Ou Doisneau.
Era um domingo de Carnaval. Nada melhor. Aquele mundo despropostitado de cores exageradas tentando atrair a atenção do mundo para uma alegria tão falsa e enfadonha quanto exagerada. Não deveria ser mais difícil que deixar de sentir cheiros. A anosmia voluntária foi uma decisão tomada no verão anterior. Acreditava que o olfato era o único sentido que ainda não lhe permitia a libertação de certos preconceitos de classe, principalmente. E o olfato sempre lhe fora o sentido mais aguçado. A possibilidade zen de perder um sentido e se desligar um pouco do mundo material também lhe agradava e assim o fez. Deixou de sentir cheiros.
Agora as cores.
Não lhe escapava a ironia da falta de sentido de sua vida recentemente. A ageunesia não era uma coisa a se desconsiderar. E a anestesia poderia ter suas vantagens. Quem sabe como seria a vida sem intermédio de perpções fisiológicas, um mundo puramente conceitual? Ora, uma vez que ele fazia mesmo a interpretação de estímulos e a comunicação era impossível, uma vez que duas pessoas não sentiam da mesma maneira, qual a vantagem? Guardar para si? Ou tentar desesperadamente, como tentara a vida toda, por meio de sua música ou de suas pinturas, sem sucesso, fazer com que os outros percebessem?
Não. Era assim e assim seria. Quem sabe no ano que vem ele teria colhões para deixar de sentir gostos. E se alimentar por necessidade fisiológica, apenas, não mais por prazer. Seria mais fácil ater-se a uma dieta saudável, além de tudo.
Um dia poderia, também viver sem música.
Talvez.

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