Escolhas

Escolhas conscientes são coisas pentelhíssimas. Pentelhississíssimas. Sujeito faz escolhas todo dia desde a hora que levanta. Vou ao banheiro ou não? Aperto o tubo de pasta de dentes no meio ou no final? Vou ou não trabalhar hoje? Ligo ou não ligo?
Escolhas. A vida toda. O maldito jardim dos caminhos que se bifurcam do Borges.
A maioria é impensada, quase inconsciente. Se assim não fosse, ninguém seria são. Er… Enfim. Ninguém manteria essa aura de sanidade tão necessária para a vida da pessoa moderna.
Mas.
Escolhas.
Essa semana pré-carnavalesca, rescaldo do 2006 dos infernos, deixou-me com três para tomar. Sob ameaça. A primeira delas, relativa a trabalho, teve de levar em conta uma fidelidade que eu não sabia que ainda tinha para com pessoas que ajudei. Não que elas tenham pedido algo. Não que elas teriam pedido algo se soubessem da decisão que eu precisava tomar. Mas foram levadas em consideração e me fizeram decidir (eram duas partes, complementares. Não havia causalidade, mas havia sincronicidade). Ou seja, preferi o risco. O engraçado é que, para todos, vai parecer a solução cômoda, mas é a mais arriscada, a mais difícil, a mais desgastante e a com maior chance de dar bosta. Das grandes.
A segunda teria sido mais leve porque é a única saída digna e a coisa já foi repensada tantas vezes — e não só por mim —, que não havia efetivamente uma escolha. E doeu. Doeu pracaralho. Ainda dói toda vez que penso nisso; agora, por exemplo. E eu ainda me pego chorando, besta que sou. Acho que o tempo arruma essa aí. Só o tempo. É a decisão que dá mais vontade de destomar. Mas, a man's gotta do what a man's gotta do.
A terceira foi detonada por uma decisão alheia. Uma decisão sobre a qual eu não tenho o menor direito de criticar ou de tecer comentários sobre. Nenhum. Nada posso dizer. E no entanto, há uma parte de mim morrendo pela pessoa que tomou a decisão. E essa parte que morre, determina a minha decisão. E eu sei que vai doer e eu vou perder muito e que eu talvez venha a me arrepender, mas é o que eu preciso fazer agora, é o que me devo.
E é assim, crianças, não tendo quase nunca aquilo que se gostaria, sempre tendo de abrir mão mais um pouquinho, sempre tendo de ver o mundo esboroar em caminhos que não fazem sentidos, vendo pessoas fazendo o que fazem e não tendo a menor idéia dos porquês. É assim que se passa mais um dia, pensando que vae victis e sic transit gloria mundi e que vanitas vanitatum et omnia vanitas e que suave mare magno, no final das contas; e sim, eu achei meu livro do Asterix, aquele que comprei em Paris, com as citações em latim, e na verdade, na verdade, fico aqui com vontade de cantar-lhes que o mundo é um moinho.
Mas não vou.

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