20070210

Flerte

Flerte
— Me ajuda?
— Claro! O que você quer fazer?
— Então… Eu quero te enganar…
— Como? Como assim?
— Assim. Eu quero te enganar, fazer você acreditar que a vida sem mim não faz sentido. Que você precisa de mim para viver. Que ficar afastado de mim é um sofrimento imponderável e mais valeria estar morto.
— Peraí. Por que cargas d'água alguém iria achar isso?
— Porque eu vou te tratar bem. Bem assim: te cobrir de mimos e atenções; vou me preocupar com aqueles detalhes que te pegarão de surpresa e farão você pensar, toda vez, que eu não existo, que eu faço coisas para você que ninguém mais faz. Eu vou fazer você se achar especial, entende?
— Hm, mas isso amigos meus fazem, por que eu desenvolveria essa necessidade de estar com você? Por que nesse nível quase patológico.
— Aí é que está. Não é quase patológico. É meio como uma doença mesmo. Saudades, falta de atenção, nervosismo, tomadas de decisões sem lógica. Você vai deixar de ser você mesmo para se tornar alguma coisa entre metade de um casal e um ser cujo objetivo na vida é me fazer feliz. Tá sacando a parada?
— Hm. Isso não faz sentido ainda. Que vantagem Maria leva?
— Nenhuma. Quer dizer, eu vou te dar atenção e tals, vou ser mais presente na sua vida. E sexo. Não se esqueça disso que é muito importante, principalmente para vocês, homens: sexo quase a toda hora que você quiser.
— OK, sexo com você parece ser uma coisa bem divertida. Mas não é, assim, que esteja faltando, sabe? Até agora, do que você disse, não vejo muita vantagem sobre minha vida atual. Tenho sexo, tenho carinho de amigas, de parentes, tenho papos com amigos… Seria uma exclusividade, é isso? Você seria uma posse minha, uma coisa que eu posso guardar na gaveta?
— Quase isso. Nem sempre essa exclusividade rola, mas é, digamos, uma prerrogativa, um passe VIP. Mas o mais maluco é que, se você tentar me tratar como uma propriedade sua, eu vou te agredir.
— Isso seria mesmo o natural. Por que você acha maluco?
— Porque toda a base desse relacionamento que eu quero estabelecer com você é de posse. De exclusividade. De isolamento. É criar um mundo novo, apartado dos mundos em que a gente vive hoje. É um apagar a própria personalidade em prol da entidade maior do Casal. É claro que, depois de um tempo, eu vou te acusar ter mudado, ou de eu ter mudado por sua causa, ou de você não me deixar respirar, ou que a gente acabou muito ensimesmado e que precisamos de novidades nas nossas vidas. Coisas assim.
— Espera um pouco. Isso não parece com você. Isso não me soa como o tipo de coisa que você faria comigo, muito menos com você mesma. Não está fazendo muito sentido.
— Não precisa fazer sentido. É assim mesmo que funciona, eu andei pesquisando. E fica tranqüilo que não dura para sempre.
— Claro que não. Se a gente não se matar, vai se cansar de fingir um pro outro rapidinho.
— Mas não é essa a questão. A questão é que é um modelo milenar e todo mundo faz isso, menos a gente.
— O que não quer dizer que estejamos errados.
— Mas você não se sente um freak? Um anormal?
— Haha. Eu me senti assim a vida toda, qual o problema?
— Enfim. Eu sabia que isso ia ser difícil com você. Mas, e aí? Me ajuda?
— A me enganar? Até ajudo, mas acho que não vai funcionar.
— Vai sim, você vai ver. Em pouco tempo você vai acostumar com as coisas que vou fazer e se sentir "completo"…
— Odeio quando você faz esses sinais de aspas com os dedos. Hahaha.
— Tá vendo, é bem por aí. Essa é uma das coisas que você tem de guardar com cuidado. Daqui a uns anos, você pega isso, finge que é importante, discute comigo e fica livre de mim.
— Mina, isso faz menos sentido ainda! Você tem certeza de que está bem?
— Absoluta. Eu só queria testar, sabe. Mostrar para minha mãe e minha irmã que eu posso fazer essas coisas também, por mais estúpido que isso pareça.
— Tá, mas isso não vai fazer a gente se odiar, no final das contas?
— Ah, não necessariamente. Quer dizer. Sim, mas pode ser por pouco tempo. Depois a gente volta a ser amigo.
— Eu tô achando a maior idéia de jerico que você já teve. Eu adoro suas idéias bizarras, mas essa está ganhando. E eu tenho a impressão que a gente pode se machucar muito no processo.
— Vai me ajudar ou não?
— Machucar de verdade, sabe? Ficar com raivinha, de si e do outro. Não-bom.
— Vai me ajudar ou não?
— Você não presta. Sabe que eu sempre acabo comprando suas idéias. OK. Vamos lá. O que eu tenho de fazer?
— Vai embora para eu poder te ligar e dizer que estou com saudades.
— Hein??

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