I.

I. Foi um encontro fortuito, de trabalho. Não era para a gente ter se conhecido. Depois, não era para ela descer comigo para fumar, porque ela odiava cigarro. E não era para ela me contar quase a vida toda, num tom de confissão serena de quem confiou a vida toda em mim. E não era para eu achar que podia confiar nela como se ela tivesse feito parte da minha vida desde sempre, ainda que eu possa confiar em I.
I. foi um erro de cálculo, um desvio do padrão, uma inconsistência na minha história. Feições finas, trato fino. I. envelhece bem, envelhece dignamente. Sim, ainda a vejo de quando em quando — almoços e cafés e aconselhamentos profissionais e as confissões.
Há qualquer coisa no fundo do fundo do olho de I. que não me deixa ir muito longe. Nem me afastar muito. Acho que o problema, para variar, sou mesmo eu. Mas ela está cada dia mais linda, e cada dia mais desgostosa com o mundo e com os homens. Que me veja, ainda, e perca comigo horas de seus dias ocupados e que me confesse mais do que eu acharia saudável, parece ser indício de alguma coisa a mais. Mais uma coisa a não se concretizar. Mais uma ponta solta na minha vida.
I wish.

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