20070220

In spite of me

In spite of me
Hoje eu contei para um estranho tudo sobre você. Tudo o que sei sobre você. Era um desconhecido que encontrei de um jeito bizarro, numa situação estranha por causa de uma eventualidade nada a ver. Não era para ele estar ali. Nem eu. Mas estávamos.
Enfim.
Contei tudo pra ele e ele me olhava com aquela cara de quem não estava acreditando, ou estava achando muito estranho. É claro que pensei na música do Morphine, mas só depois, quando voltava para casa. E é óbvio que tive de colocar a música para tocar para escrever o texto.
E, definitivamente, eu não deveria ter colocado a música.
Mas, eu dizia, contei a história toda lá para o cara, que era bem estranho, mais estranho que eu, e a gente comia um PF de omelete no Centro, ali na zona do baixo meretrício, Major Sertório, essas bandas, e dividíamos o balcão com travestis e prostitutas, protegidos pelo anonimato instantâneo de São Paulo. Mesmo sendo nós dois tatuados de cabeças raspadas falando de cinema, relacionamentos e física quântica.
Contei a história e ele escutou, e tomava lá sua cerveja, e ouvia, e coçava a careca, e cofiava a barbicha grisalha que começava a despontar no queixo. E ele disse: essa mulher é louca.
Veja.
Perceba.
Situe.
Entenda.
Fui buscar uma das figuras mais bizarras que já conheci, e que eu via pela primeira vez, para que ele me dissesse com todas as letras a mesmíssima coisa que minhas amigas já me haviam dito nos meses desde que os eventos em questão tomaram lugar nessa realidade colapsada de todas as possibilidades todas tudus. Justo esse padrão é o que surge.
Juro que não acho que você seja louca, por mais que eu seja a voz dissonante. Mas aí me lembro que você mesma me disse que mulheres são loucas e acabo achando que eu é que forço a barra na idealização.
E que eu deveria ouvir mais as pessoas.
Vox populi.
E é aí que paro para pensar nas coisas que você fez e que você me fez e, principalmente, nas coisas que você fez e com as quais eu não tinha nada a ver, ou não deveria, ou não deveria achar que tinha algo a ver, ou que não tinha direito de opinar ou de saber ou de… Enfim.
Saí de lá explicando a um amigo que estava junto que não, aquela moça que sentou-se ao lado dele não era moça, era moço. E me perguntando por que dou corda? Por que deixo todos esses desequilibrados se aproximarem, trato bem e ainda sou tido como amigo? Porque eles são infinitamente mais divertidos que as pessoas de bem?
Most probably, yes.
Já a caminho de casa, a música tocava no hi-fi quadrifônico valvulado que tenho escondido atrás do meu cerebelo. A do Morphine.

And I know you did it all
In spite of me…

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