20070209

Lola

Lola
Dificilmente ele encontraria saída do emaranhado emocional em que se metera. Ela o olhava com um desdém salpicado de comiseração que só quem convivera com ele por anos poderia: era um misto de reconhecimento pela profundidade que ele era capaz de dar às coisas mais imbecis, enquanto flanava por sobre os poços abissais que não lhe chegavam a fazer cócegas. Era uma lógica toda dele, uma lógica que desafiava até mesmo as mulheres.
Mas, daquela feita, ele parecia acuado. Ele parecia cansado. E isso a preocupava mais que tudo. Nunca, nos piores momentos, nas derrocadas mais injustas e absurdas, ele perdera o humor ácido e o entusiasmo que nada tinha de pollyannesco. E agora ele estava cabisbaixo. Acorcundado, se me permitem. Era uma cópia mal-ajambrada dele mesmo, um arremedo do mostrengo folgazão que não parava; ele antes simplesmente não parava.
Agora estava ali, prostrado, perdendo dias ensimesmado, chafurdando emoções e pensamentos antagônicos, tentando fazer algum sentido daquilo tudo. Essa era a pior parte. Ele sempre se dera bem em todas as situações, sempre se saíra melhor que a maioria dos ursos porque não parava para tentar entender, não queria fazer sentido, não precisava enxergar o padrão. Ele vicejava no caos. Ele sempre amara a confusão.
Até que conheceu der Blaue Engel. Chama-la-emos Lola.
Ela odiou Lola desde o primeiro minuto em que a viu: não é mulher para você!
— Como assim? Tá me tirando? Tá achando que eu não posso?
— Não, imbecil, Ela é menina demais pra você. Você precisa de mulher. Mulheeer, saca? Ela vai fazer você sofrer. Você vai se fodeeeeeeer!
— Caceta, Cassandra! Tá de TPM?
— Eu avisei, só se lembra disso. E Cassandra é sua adorada mãezinha, aquela de quem você vai tirar o coração...
— Lupicínio?
— Acho que é.
— Hm...
Na verdade, estava mais para Nelson. Rodrigues.

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