20070217

Manemolência

Manemolência
Sentada ali, com os óculos 3D no rosto, não sabia bem se ia ou ficava. Achava graça nas gentes passando, coloridas, fantasiadas, bêbadas.
Era Carnaval e ela não sabia por que cargas d'água não estava odiando completamente o Carnaval daquele ano. O último Carnaval de que se lembrava tinha sido num clube em outra cidade. Ela tinha certeza de que era uma matinê. E que havia tocado algo como um funk do Kool & the Gang.
Ela colocara os óculos 3D por falta total de paciência para guardá-los na bolsa. Óculos daqueles de celofane azul e vermelha. No caso, plástico mesmo. Por falta de paciência de voltar ao estúdio e devolver os óculos. Por preguiça de ver o mundo sem distorções.
Essa vida de pensar e teorizar e repensar e espremer significados de amores e laranjas a estava desgastando e secando-lhe os olhos. Alex de Large, ela lembrava, e todavia não podia tomar as decisões certas.
Todavia, usado de um jeito errado.
Mas será?
Óculos cor-de-rosa não iam adiantar agora. Óculos 3D. Sim. Nada mudava, nada ficava 3D. Mas o tempo passava e ela se sentia um pouco mais esquisita a cada hora. E cada olhar de desagravo a deixava mais feliz. Mais livre. Mais sozinha. Mais faminta.
Deixa estar, Vossa Majestade. Esse seu reino é de quatro dias.

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