20070203

O casal

Casal
Queria sempre as coisas do seu jeito. Descobriu logo que as queria do seu jeito porque se lhe davam, sempre, como as queria. As coisas. As pessoas. Os amores. Era fácil ser ela. E não havia nenhum problema que um olhar não resolvesse.
Era fácil ser ela.
Quis sempre as coisas do seu jeito até um dia. E nesse dia o conflito era exatamente o querer. Cindiu a personalidade e brigava, diuturnamente, para saber qual das duas teria as coisas ao seu jeito. Durante um tempo conseguiu as coisas dos dois jeitos. As pessoas se entreolhavam, atônitas; mas acostumadas a fazer-lhe os mínimos desejos reais, corriam desesperadas por demandas tão díspares.
Quis, finalmente, morrer. Não houve quem lhe auxiliasse. Nem mesmo ela. Deixou-se largar e foi acudida como se fosse aquele um pedido de cuidados. O costume falou mais forte e ela bebeu aqueles agrados e mimos mecanicamente. Por anos.
Foi somente quando ele entrou na sua vida que pôde morrer. O único que não lhe deu tudo foi o único a lhe dar a liberdade. Ela o odiava e já não podia viver sem ele. E encontrou o descanso. Deixou de viver sem ele. Acreditava, com parcial razão, ter conseguido todas os caprichos, enfim.
A história dele? Exatamente o contrário. Por isso não a contamos. Porque ele gostaria que fosse contada.

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