Cartógrafo

Dois mil trezentos e quinze retratos na parede. Nas paredes. A sensação era a de ver a própria vida passando na sua frente; um giro, dezessete segundos. Ou horas de contemplação.
Não havia muito, teria ido embora. Sabia reconhecer situações irreversíveis e não tinha ilusões quanto aos seus limites.
Olhava as paredes em busca do padrão. Perscrutava as imagens linearmente. Centrifugamente. Aleatoriamente. Não havia dica. Nada que pudesse usar. Não havia regra, não havia explicação.
Sua vida nunca teve uma gramática, um sistema coerente. Não seria possível reproduzi-la. Não era, definitivamente, uma vida criada em cativeiro.
Duas mil oitocentas e oito fotografias nas paredes. Lugares, pessoas e coisas que funcionavam como marcadores temporais, gatilhos que disparavam eventos e misturavam memória a uma certa liberdade poética.
Seu passado muda constantemente. E gravidade suficiente relativiza tudo.
Segue, destarte, fazendo o mapa que a ninguém terá serventia. Nem a si. Seguir é questão de sobrevivência, não é escolha. Cartografar é volição. Quereria dizer arte.
Ou amor.

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