Contraponto

Você me lembra minha adolescência. Não que você seja adolescente, é claro, e nem sequer age como tal. Mas você me lembra de dias mais fáceis, menos sisudos; dias feéricos. Dias salpicados de dúvidas que pareciam do tamanho de quasares e não incomodavam a ponto de atrapalhar um malho.
Nah.
Você me lembra de quando eu era menos pedante. De quando eu dava risada de Apertem os cintos… Você me lembra que eu fui mais leve. E mais gordo.
Você não deixa que eu me esqueça de que eu já cri. Já errei. Já morri. Já fui besta e meio. Já perdi tanto a compostura que não tinha moral sequer para xingar o bêbado do bairro.
Você me faz lembrar dos porres que não tomei, por medo de dar vexame. E de quanto tempo perdi.
Eu olho para você, converso, ouço sua voz, e sei que ainda estou vivo. Que posso começar tudo de novo, do zero. Que ainda tenho muito para queimar. E que ainda vale a pena. E que seria uma sorte ter você.
Mas não creio que isso seja possível.
E me convenço que não é possível.
Todo dia.
Mas só descobri agora.
Agora, que corro o risco de ficar sem ver você.
Agora, tarde, bateu saudades.
Durma bem, pequena.
Eu velo.

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