20070304

Tranqueiras

Tranqueiras
Colocou um aquário no hallzinho de entrada para socar-lhe as tranqueiras para as quais não tinha mais lugar.
Comprou, é claro, um aquário com cara de aquário. Aqueles capacetes espaciais da década de 50.
Deixou as pedrinhas no fundo e a plantinha, de plástico.
E foi socando:

Molho de chaves da casa velha.
Cartão do fliperama da Paulista que fechou em 2003.
Meia do São Paulo. Furada. Singular.
Contrabaixo.
Inocência.
Bola de gude com um racho grande o suficiente para mudar a trajetória.
Pente.
Desculpas.
Arquivos dos blogs velhos.
Vinil do Virna Lisi.
Plástico-bolha "usado".
Aquela esperança de tudo se ajeitar.
E a carteira de identidade.
Arapuca.
Fé.
Biscoito meia-boca, meio comido.
Brincos que não sabe de quem são.
Anéis que não sabe quem deixou lá.
Elástico de dinheiro.
Letra de música do Chico.
Mandala de botões.
Furinhos nas costas.
Foto desfocada, escura e sem enquadramento.
Doutorado na Itália. Di ricerca.
Óculos de Pollyanna.
Bons modos.
Cuecas desbeiçadas.

E o amor corre sério risco.

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