Afobado

Não durmo. O Swift não ajuda. A chuva mirrada do final de noite não ajuda.
Não sei se quero e sei que não é inteligente da minha parte, mas já é um pouco tarde para ter esse tipo de precaução: eu não durmo pensando em você.
Tenho consiência de que segredei às amigas que não queria me apaixonar de novo. Não ainda, não tão cedo. Não agora. Admito que é arriscado, fui o primeiro a levantar os perigos, a falta de senso, a necessidade de luto. Cheguei mesmo a esboçar uma teoria sobre a ausência de ritos na sociedade ocidental moderna como origem de males psicossociais e neuroses da moda.
Mas sou réu confesso.
Declaro-me culpado.
E me dou conta de que tenho feito convites, levado você para almoçar, escrito e-mails e enviado SMSes. Daqui a pouco eu cozinho. E mando flores. Se não me refreio, acabo nas massagens, bilhetes deixados na bolsa e declarações de estilo duvidoso.
E café na cama, se estiver com sorte.
E mais uma dor, se estiver errado.
Ainda há tempo de matar essa coisa? Sempre há tempo. Mas a esperança, aquela que já disse ser involuntária, veste-se de Pateta-diabinho e fica no meu ombro direito montada na carpa, dizendo que eu posso perder o "amor da minha vida" se desistir agora. É, até meus demônios são bregas.
Aí fico perdendo meu tempo e meu sono listando prós e contras, defeitos e qualidades. E escrevendo, para ler depois e ver se faz algum sentido.
Sempre faz, mas muito pouco.
E tento descrever você, que é linda e é inteligente e é boníssima e muito bem-humorada. E deixou um relacionamento longo há pouco. E provavelmente me vê como um tiozinho competentíssimo e amalucado, com umas idéias estranhas e falando de filmes que ninguém mais vê. Chances exíguas, inexistentes até.
E me perco um pouco nos seus braços e um muito na sua boca. E desejo estar perto e me ponho longe. Porque eu deveria estar aqui na praia em retiro, refazendo-me dos velórios das últimas semanas, guardando os esquifes posto que essas coisas ficam arranhando as tampas dos caixões e preciso ser duro nessas horas.
Eu preciso ser duro comigo. E acreditar que vai ser melhor a vida, de agora em diante.
Mesmo que eu não tenha certeza de que será melhor. Mesmo que você não me queira.
O sábado chega em breve. O racional — o Pateta-anjinho —, montado no dragão, no meu ombro esquerdo, diz que devo "ir para as cabeças". "Ou vai, ou racha." "Ou tudo, ou nada." E me aborreço porque, se tenho demônios bregas, tenho uma consciência que só sabe usar chavões.
E me aborreço porque você não está aqui.
E não durmo.

0 Comments:
Post a Comment
Links to this post:
Create a Link
<< Home