Desalinho

Você não estava comigo enquanto eu fazia ruínas-trilha-cachoeira, caminhada-praia-casarões, praia-igreja-orla. Você não estava comigo, mas seu cheiro estava em mim. Sim, Caríssima, igual ao meu sonho: quando você vai embora…
Mas eu bebia lua e sol e sal do mar, tão antigo e tão familiar. E via tudo e sentia tudo com uma ponta de saudades que queria crescer e eu não deixava; com um respeitável exército de borrachudos e siris-patolas eu desancava a saudade, que era forte e comia os siris enquanto esmagava cruelmente os pobres mosquitos.
Então fui andar mais um pouco, leia-se "fugir", Dulcíssima, fotografar imperfeições e daguerreotipar frustrações para fazer postais de boas-festas. Fui buscar pescador de bagre em pier de farol pequeno e tecedeiras aprendizes que fofas de tão solícitas. E encontrei o sorvete. Os sorvetes.
Não, ainda não é o Sorvete Definitivo, porque este, Cachoeira, deveremos encontrar juntos, posto que assim foi profetizado, e eu que não brinco com esses biscoitos chineses, que eles podem acabar conosco soterrados em migalhas (e os danados já são lá mais numerosos que os chineses, em razão de trêspraum)! Mas são concorrentes de galardão, os tais gelattos, e merecem ser citados — quiçá sejam elegíveis a menção honrosa, ainda estudaremos o caso. Com afinco.
Mas me perco um pouco para falar dos sorvetes e a eles volto, dedos, papilas gustativas, nervos olfativos e saudades de você:
Pistache, verde e pedacento, quiçá como seus beijos de morder lábios e engolir o outro numa contenda de "quem tem mais sede", cheio de sabor e cheio de um aroma de dormir agarradinho.
Café, cor de café-com-leite e pedacento, quando não deveria. Ou deveria, como nossas conversas, Linda, que têm estranhos fragmentos duros de roer. No caso do sorvete, literalmente: pedaços de café. No caso de nossas conversas, um pouco amargas, um pouco doces, um pouco doidas, bastante excitantes e tão difíceis de dormir depois quanto. E cheiro de pré-coito, desse joguinho que nos é tão peculiar e tão fastidioso às vezes, admitamos, mas que faz de seus gemidos um butim digno do pirata salafrário que sou.
Gengibre.
Sorvete de gengibre.
Quase da cor da tua pele.
Fibroso, sem pedaços, mas com aqueles fiozinhos do gengibre mal triturado, do amor mal-resolvido, das sobras de todos os amores todos e vidas todas de antanho que sempre vêm dizer-nos não fazer ou fazer. Como se não fosse parte da brincadeira esse errar erros novos e refazer velhos hábitos com roupas e cores não experimentadas.
Cheiro perfumado de suor, de saboneteira, de trás-de-orelhas, de pedaços de pele pudicamente secretos. Da tua pele livre de perfumes e sabonetes e hidratantes — da tua pele lavada por seu gozo recente.
Mas quem perdeu-me foi o sabor forte, forte, que causou espanto, estranheza, alertou todos os sentidos, chamou a guarda-costeira, os bombeiros e as madres carmelitas descalças enclausuradas da igreja matriz. Fez ventar e fez chover. Fez vontade de ligar e tirar você do trabalho chato que se arrasta até que seus sonhos se apequenem. O sabor era o seu, gengibre, Sapatos-de-boneca. O sabor era aquele mesmo que me faz vencido e amotinado e hirto e confuso e enlevado e caído e apaixonado.
E se eu não liguei, Mulher, na mesma hora, esbaforido para confessar todos meus pecados, principalmente os ainda não cometidos, é porque não tinha celular à mão e não estava certo e já não sei mais o que fazer para que você entenda, Sweetest, que minha vida não é divertida sem você. E tenho medo que o tempo nada tenha a ver com essa história.

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