20070426

Maristela

Maristela
Maristela servia no boteco da família, das nove às seis porque essa época a gente fecha cedo porque tem pouco movimento por causa da dengue que o pessoal acha que é aqui, mas é só lá na cidade, que aqui não tem não, mas as pessoas ficam com medo e não vêm mais a Ubatuba por isso, sabe?
Nascida e criada aqui, ela carrega olhos baços de uma vida toda de maresia. Mas essa serração oftálmica deixa de existir às primeiras gentilezas, sorrisos fartos e interesse genuíno. Maristela sente falta de estudar. Sente falta de viajar. Queria ir novamente a São Paulo, com mais tempo. Queria morar em São Paulo, ver coisas, ver o mundo.
E o mar?
O mar é lindo e eu não sei se ia gostar de ficar longe, não, mas sempre dá para vir visitar os parentes e o mar, né?
É…
Um dia eu acho que vou mesmo para São Paulo, sabe? Estudar, arranjar um emprego de verdade. Mas seu emprego não é de verdade? É, mas não é, sabe? É que parece que eu não sou daqui, nem nunca fui. Menos o mar, que do mar eu sempre fui, né?
Maristela tem razão em algum lugar que não é possível identificar. Ela se move diferente da gente do lugar. Ela se parece com ninguém por aqui. Ninguém daqui. Em algum momento a cegonha errou, parece, e deixou Maristela (stella, mare) encalhada na praia.
Na hora de ir-me, a cédula era grande demais e Maristela disse-me que pagasse depois, que não tinha troco. Que confiava em mim.
Não devia, Maristela.
Por quê?, quis saber.
Porque eu sou um pirata, Maristela, eu também não sou daqui.

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