Purgatório 2.0

Sentia-se perfeitamente sã naquela tarde, o que a fazia parar e começar a ponderar: o que foi mesmo que mexeu tanto com ela que a impede de ter uma vida normal?
Bem-vinda à Terra Encantada da Auto-comiseração, um pedaço de terreno longínquo e seco no qual ela quase não consegue respirar e sente sede o tempo todo. A população do local não excede 490 habitantes. Na real, parece um pequeno pedaço do inferno. Um franchise, se prefere.
O populacho local faz piada de seus ferimentos como forma de manter a sanidade. O que eles não percebem é que não são nem um pouco sãos. Fantasma, a maior parte deles. Cidade-fantasma.
Esperar pelo ônibus não a levará a lugar algum. Não trará nenhuma conclusão. Nenhuma idéia genial. Revelações esotéricas não são vendidas aqui, e nunca nesta época do ano. Ninguém deixa esse local. Nunca. Todos fazem parte da paisagem, a esta altura. A não ser ela, a doida com a estrela tatuada na testa, pode entrar e sair quando quiser. Entrar e sair, desde que se conhece por gente. Mas ela sequer gosta daqui, Cidade-espelho, e se surpreende cada vez que entra nesses domínios.
Teria sido o desvio em Albuquerque? Teria sido a falta de gasolina? Teria sido o mojito batizado que aquela vagabunda loira e alta a fez beber?
Nah. Volição. Demoraria mais quinhentos anos de terapia para começar a entender por que ela faz isso consigo mesma. Melhor fingir que está tudo bem e fazer dessas horas aqui o menos sofridas possível.
e foi mesmo por isso que ela trouxe o clarinete que não sabe tocar. Diversão. No sentido de tirar a atenção das coisas que a aborrecem. Ou machucam. Tirar a atenção de si mesma. Agir de um jeito que evite de aprender alguma coisa. Porque aprender alguma coisa a tiraria daqui num piscar de olhos. E provavelmente a faria acordar.
Aqui, ela é rainha. Ela só tem passe-livre porque sempre acaba voltando. E aqui ela se move com elegância, com finesse. Essa Cidade-sonho é o lugar onde seus caprichos são leis, efetivas no momento do seu desejo. Estranhamente a felicidade nunca está por perto, mas isso a faz pensar se a felicidade é realmente aquilo que ela deseja.
E é por essas horas, quase alvorada, que o ônibus, vejam vocês, passa mesmo, e ela tem de partir. Ir embora até que ela ergulhe de novo. Outra queda. Outro amor.
Ela quase ten pena de ser ela mesma.

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