20070523

Ban-cha

Bancha
Sorvo o chá verde quase insosso que me engana e me enche de saudades e me faz querer mais, eu, que tudo já perdi, descubro a cada dia mais coisas de perder. Não é fantástica essa capacidade cornucopiana de perder e perder e perder e olhar para trás e não ver nada, que já tudo é perdido e não mais importa?
É, a prodigalidade é minha.
A abnegação só entra em efeito assim que eu já não posso mais reclamar o perdido. E faço pouco caso do que não é mais, que é assim a vida de um Cangaro Giallo — tolo, espavorido, divertente e safado.
Olha bem para mim agora, que não dura muito o que vês. Logo eu perco mais alguma coisa e sou outro, mais leve, mais duro, apontado na rua e impedido de entrar em igrejas. Um fauno, uma lagarta-listrada, um arminho-do-demônio, um livro-de-horas.
Eu, que mais do que tive fui capaz de perder, não ligo de perder mais um pouco, que é mesmo minha vida essa de refazer e reinventar os buracos parecendo à vontade com essa vida de dar.
E não, não quero nada em troca. Um gosto muito sutil de ban-cha, quem sabe, uma lua, de quando em vez.

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