Chá preto com lichia

Uma lichia equivale a três tochas. E não me peça para dizer isso em cantonês porque bem sabes que ando mais carcamano que nihonjin. E que nunca fui chinês.
Decerto não preciso ser mais yang hoje: a tensão já atingiu os limites permitidos por lei. A saudade arrebentou os medidores.
Não, querida, não faças pouco, não faças caso. Eu entro em combustão espontânea — já aconteceu uma vez em algum lugar do hemisfério norte, e não foi bonito. Ainda procuram por mim nos escombros.
E só porque eu resolvi aparecer aqui, hoje, inteiro, isso não significa muito.
E já escuto as sirenes dos precavidos bombeiros — vá lá, eles contrataram videntes de prever incêndios. E é melhor eu me cuidar que fugir de países é trabalhoso, caro e divertidíssimo, mas nunca sozinho.
E sozinho…
Chá preto com sabor de lichia, bem lá ao fundo, escondido de ter de prestar atenção máxima a cada gole. E de se perguntar se é mesmo verdade que há ali lichias ou se as gentes, por força de auto-sugestão e medo do ridículo, por total incapacidade de lidar com decepções sonham lichias e as colocam onde nunca as houve.
Eu sei do cheiro.
E sei do yang.
Boas noites.
Durma bem, se podes.
Eu me viro, como me aprouver.

1 Comments:
Foi uma surpresa e um prazer grande encontrar ao acaso o seu ( outro) blog e depois este. Ora, este mundo esconde pessoas e palavras inesperadas...
Parabéns pelos textos. Mesmo.
Silvia
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