Falha

Eu devia saber, quando vi a cor dos seus cabelos, que não seria normal. E agora eu queria estar alhures. Aliors.
É notório que busco a diferença, que me aborrece o mundano, o ordinário, o padrão. Que me emputeço com a média, com a mediana, a mediocridade. Se me deixam sem supervisão, sou capaz de tocar fogo na folhinha, na caderneta e no cartão de ponto. E em quem tentar impedir. Dêem-me, no mínimo, o desvio padrão. Nunca menos.
Seus cabelos, eu dizia, mostraram-me seus olhos, e seus olhos não paravam de falar. Seus olhos tinham três anos, em plena idade do "Puquê?" Seus olhos estavam famintos naquela noite. Seus olhos traíam um ennui mal-disfarçado e pediam, ah, como eram pidonchos aqueles olhos.
E tuas bocas faziam seu truque de ilusionistas e tiravam minha atenção do mundo. E mundo já não mais havia.
Eu deveria saber, pela tua compleição, que não seria fácil. E agora eu queria estar nenhures. Não-estar.
É conhecida minha sem-vergonhice, que me enfada o morno, o insosso, o brando. Eu tenho preguiça da mesmice, da falta de imaginação, da burrice. Mas você era diferente. Incomum.
E eu não consigo parar de pensar em você.

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