20070501

"Olhante"

Olhante
Durante o desjejum me dá vontade de inventar uma personagem com olhos de pires, um deles multifacetado, o outro cego à luz: várias perspectivas e ausência de estereoscopia, ausência do 3D inventado por nossos cérebros medrosos. Olhos terríveis, assustadores.
Uma vez criados, eu veria o mundo com esses olhos, refugiados da ficção que conjuro todo dia a fim de tornar a existência menos real e mais tolerável.
Só assim poderei seguir sem você e parecer vivo, e parecer são, ainda que derrame palavras em desconhecidas e em canteiros de flores e em cafés espressos e em música sincopada. É que seria necessário homenagear Cortázares e Coltranes e Laffites e Krzyzanowskis e Colemans para, se não fazer algum sentido, parecer bem e não causar maior ojeriza que a feiúra desses olhos de insetos-gigantes-rayhousenianos.
Amanhã, está desde já decidido, saio às ruas, destarte, derramando palavras ("saudades", "azul", "mil-folhas", "amaro", "pífio", "desoxirribonucleico", "marulho", "empertigado", "néscio", "scherzo", "sorria" — todas essas, se as vires pelas ruas da cidade, saberá quem as perdeu) e colecionando faces de desconhecidos.
Nunca será mais difícil que te esquecer.

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