Orquídea

É quase como se houvera apenas o cheiro. O intangível. Não se pode aprisionar o vento. Não se pode iluminar o ar. O chá de orquídea é cheiro; e o retrogosto picante. Como foi a nossa primeira noite, noite de distância, gozo e dolo.
E, quis você, alguma hipocrisia necessária à manutenção da sanidade dos envolvidos. Sim, sou forçado, circunstancialmente, a concordar: estivemos por um fio.
Estamos.
O chá, a orquídea, nos envolve e promete embalar, mas não conseguiríamos dormir ainda que quiséssemos, na espera do sabor apimentado, uma vez mais, da vida mais forte, mais cheia de sabores e plena de pequenas surpresas curtidas em admiração silente.
Não dormimos pois ainda há léguas a cobrir e o tempo, que já é escasso, ameaça mudar. Não dormimos porque não nos deixam os gemidos e os sussurros e o absurdo.
Chá de orquídea. Absurdos meio-amargos. Semanas. Quilômetros. E medos.

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