Preguiça

Entregue à preguiça fico solto, lasso no sofá, na banheira, no chão da cozinha recém limpa pela faxineira que não me vê e não me sabe. Cheiro de desinfetante, lembranças aleatórias de infância, de tempos mais leves. Leveza preguiçosa.
Hoje, pensando em mim como pedaços e nomes que são dois mais que o suficiente, mas são todos os que me definem, sempre um pouco mais diferente que ontem. Ontem. Tempo. Eras. Centenas de anos.
Preguiça que me faz mole e deixa um pouco das necessidades e verdades do lado de fora, na sacada, tomando sereno, esfriando ao relento. Perdidas.
Já me parece tão bom esquecer um pouquinho de mim e de tudo o mais que faz fila pedindo atenção, uma xícara de açúcar e mais um beijo. E mais uma palavra. E, talvez, uma torrada, com mel.
E vão vocês trabalhar e lavar louças e limpar caixas de gatos e googlar atrás de seus próprios nomes que o mundo espera. Espera, mas não se importa. E eu menos um pouco, aqui prostrado e feliz como Ornette em nesga de sol.
O chá também pode esfriar e Claire pode esperar e a cama está muito longe agora — longe de não fazer falta pois eu sou preguiça e eu também posso esperar.
E fico.
Que hoje é resto de dia que se deu tanto ao fazer e eu quero menos é fazer. Ou ser.
Deixa eu sumir um pouquinho, amicíssima, que daqui a pouco vem o sol pedir ciência e pertinência e veemência e ências várias de todas as seriedades possíveis todas tudus. E agora, neste nanossegundo, eu não sou mais e perdi meus nomes e desisti de ver. E de saber.
Deixa a lua me lavar, ela que nunca me pediu nada e sempre lhe dei mais. Deixa que ela me dê um pouquinho, que eu não mereço, hoje, agora, mais que o segundo que vem.
Seja boazinha, portanto, e não me ligue, não apareça, não pense em mim. Porque saudades não combinam com preguiça e eu sairia correndo a escrever um texto compriiido e cheio de louvores para ter você uma vez mais.
E tenho preguiça.

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