Achados e perdidos

— Isso aqui é do senhor ou alguém esqueceu aqui?
— É meu. Deixeu colocar aqui na frente, desculpa.
Giggio pegou a sacolinha preta que lhe entregava a passageira. Aproveitou para dar uma nova "checada" na senhora para ter certeza de que ela era mesmo feia. "Não dá nem para investir meia-hora", pensou.
Colocou a sacolinha na frente do banco do passageiro enquanto a senhora falava da greve do metrô, da greve dos aeroportuários, dos funcionários da Receita Federal.
E falava.
Não era preciso responder de verdade com passageiros iguais a ela. O que esse tipo quer é alguém que os ouça — e que concorde de vez em quando. Giggio fazia exatamente isso, soltava um "Hm-hum." quando a intonação mudava e voltava a pensar na sacolinha.
Congonhas já estava perto, e a senhora feia ainda falava, de CPIs ou algo assim. Giggio pensava no rapaz que estivera no táxi antes dela e que provavelmente havia esquecido a sacola. Entre os dois, aquele advogado careca, mas este sentou-se no banco da frente.
Deixou a senhora, que pediu desconto, e rumou para o drive-thru do McDonald's, a caminho do seu ponto.
O moleque, o da sacolinha, parecia inteligente, mas estava com a cabeça sei-lá-onde. Provavelmente pensando em mulher. Devia ter um e setenta e cinco e era gordinho. Fazia umas contas ou escrevia, num caderno, olhava para fora e suspirava.
Giggio lembrou que tentou puxar assunto. O gordinho respondeu com uma piada engraçada mas se calou em seguida, até descer no Robocop.
"O cara deve ter respondido uns 30 SMSes. Só pode ser mulher o problema."
com um número 1 e um cheeseburguer no colo, Giggio pegou a sacolinha e abriu — se tiver um telefone, eu devolvo, o gordinho foi até simpático.
Um paninho parecido com perfex, com cheiro de sabonete.
Dois CDs virgens, um deles escrito "La Haine".
Uma folha de caderno com vários adesivinhos desses que garotas de programa colam nos orelhões, um mais engraçado que o outro: Suzana peluda; Marina greluda…
Um vidro com um líquido espesso, escrito "mapple syrup".
Uma máquina fotográfica descartável.
Um isqueiro branco, mini-bic.
Giggio ficou meio decepcionado. Colocou o CD no som do táxi enquanto comia o resto do lanche. Jogou a sacolinha com os adesivos e o paninho no lixo, guardou o resto no porta-luvas. Encostou-se e dormiu.
***
Quase no fim da "ronda", Giggio atendeu um sinal e entrou em seu táxi o mesmo rapaz. Giggio ficou quieto. O gordinho não lhe reconhecera.

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