Almost blue

Encolho-me no sofá com a xícara de café nas mãos espiando as nuvens pela janela formarem desenhos de lagartas e cangurus e imaginando se um dia volto a ver você. Se, algum dia, no futuro, mesmo que afastado, seu cheiro volta a me fazer sorrir, ou se terá mudado, então, também seu cheiro.
Há outra mocinha aqui e ela não é você e não tem seu cheiro. Ela roubou algumas das suas prerrogativas e até mesmo a exclusividade de me atazanar (e você até tentou, hoje, me atazanar e me fazer criar vergonha na cara, mesmo sabendo — os dois sabendo — que você adorava minha sem-vergonhice, ou talvez por isso mesmo).
Hoje, mais cedo, antes de chegar a mocinha, bateu até uma certa saudade de ouvir você ser boba, bobiça de dar nó em argumento e fazer piada de Adorno com sandália Havaiana.
Ela faz piada de Wittgenstein e colher no gargalo da garrafa de coca-cola.
Mas fica tranqüila que era uma saudade do tipo que você acharia bacana e gostaria que eu tivesse — e era até mesmo vontade de te apresentar à mocinha e ver que tipo de coincidências estapafúrdias vocês duas descobririam em meio a medires e julgares. Até começarem a falar mal de mim, que sempre assim terminam essas reuniões embaixo de meus bigodes.
E, valha-me Ornette, bigodes eu tenho.
Ela brinca com meus medos, dirige no globo da morte, dança com cronópios, faz bico; sabe jogar calvin-ball, contar histórias e estrelas, espreguiça como campeã mundial e se perde nas minhas tatuagens; desperdiça água, ri como se nunca houvera rido e me faz agradecer você toda vez por ela não ser você.
Coloco a xícara no chão e agarro a mocinha pela cintura, interrompendo sua representação de pato disfarçado em coeho que sempre me faz rir, trazendo-a para meu colo, e sorrio quando percebo que logo me apaixono e fico bocó de novo.
Eu sou melhor bocó.

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