20070614

Caminho

caminho
Partimos hoje e não sabemos quando estaremos de volta. Se é que um dia voltaremos. Fizemos a mala tantas vezes que agora temos certeza de quanto ela é inútil e podemos perdê-la em alguma conexão, em aduanas ou em praia em dia de borrasca.
E, de fato, levamos pouco, hoje, na hora de partir — os olhos abertos, o encantamento pueril, a vontade de irmos juntos.
Destino, não levamos. Mapas, não os queremos. E não temos bolsos para suvenires ou mágoas. Mas os sorrisos e tsurus caem pelo caminho, brotando de olhares cheios de brilhinhos e cumplicidade de casal que se soube ontem e acordou hoje com medo de olhar para o lado e não ver mais o mundo, mas procurou o mundo com os dedos da mão trêmula ou do pé gelado, achando o mundo ali pertinho, com a pele, o mundo sorriso-sim-estou-aqui.
E nos damos ao mundo, nos damos ao mar, que agora tudo podemos, tudo parece possível, tudo tem mais jazz. Agora não importa mais muita coisa; agora, que desaprendemos a franzir o cenho e esquecemos como é que faz para desconfiar.
Você ilumina o caminho e ilumina tudo e roda a paisagem em technicolor e widescope e eu brinco de ser o leão da Metro só porque você ri — e você ri mundos e a gente ganha mais lugares para ir.
Logo ali. Aqui mesmo. Alhures. Algures.
Não importa mais termos demorado a sair ou que tenhamos perdido tempo até decidirmos andar. Partimos, enfim, deixando seus planos e comedimentos, deixando para trás suas ponderações e dúvidas e decisões. No final, na hora de sair, minha inocência era o que bastava. E o sorriso-sim-estou-aqui-e-só-vou-embora-se-puder-levar-você.
Porque é mister poder ir embora sempre que se quiser. E agora só faz sentido se perder por aí se for na tua companhia. Por um tempo, me parece. Trinta. Quarentanni. Depois disso eu finjo que me distraio e você pode fugir sozinha, deixando um nada: uma tampinha de dentifrício, uma mordida no tornozelo.
Partimos hoje e marcamos o dia na folhinha com as cores todas do seu estojo com a estampa do Joe Cool.
O abraço que faz o mundo desaparecer nos deixa com cara de besta, sorriso besta, esperança besta e um morninho no coração que dá sentido (besta) e dá paz para partirmos.
Via, via.
Via con me…

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