20070630

Diálogo

diálogo
Não havia muito o que dizer. Olhando em retrospecto, nunca houve. E, no entanto, falavam. Falavam como se fossem salvar o mundo, como se pudessem parar o tempo, como se fossem morrer quando chegasse o silêncio.
Falaram mesmo quando não havia mais o que dizer. E nunca houve, assentiram. Já vês que não é uma questão de querência, mas de precisão. Já vês que não se calariam antes do amanhecer.
Mudavam de assunto a cada dezoito palavras e sempre um deles lembrava o assunto original, e proferia uma conclusão, muito para o desagravo do outro. Conclusões sempre pareceram tão aborrecidas… As possibilidades, as dúvidas, essas sim, pertinentes ou não, surreais, barrocas, bizarras, faziam daquela noite um pouco mais suportável — espantavam o sono, deixavam retrogosto de maçã.
Um deles tinha cheiro de maçã. O cheiro do outro não podia ser colocado em palavras.

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