Felicidade

Jumela Tibiriçá deixou cair o garfo ao ouvir o absurdo que acabara de dizer o seu marido.
— Repete.
— Eu perdi minha felicidade. No jogo de pôquer, ontem.
— Ha. Isso não faz o menor sentido. Mais uma das suas piadas que ninguém entende.
— Não, é sério.
— O que você quer dizer, amor? Voê apostou a casa? Quanto você perdeu?
— Não, não foi dinheiro. Não foi a casa, o carro. Nada dessas coisas. Eu apostei minha felicidade.
— Oquei. Você bebeu demais, ontem.
— Ju, escuta. As apostas estavam altas, mas a gente joga a centavos, sabe? E a mesa tem um limite de mil reais. Mil reais, cem centavos, cem mil fichas. Dá para se divertir um bocado.
— Mil reais??
— E minha felicidade. Afrânio apostou tudo, eu não tinha como cobrir. Eu tinha um full de damas. Aí veio o estalo: aposto minha felicidade.
— Lotaro…
— O Afrânio foi logo perguntando: "O que eu vou fazer com isso?" E eu: "Sei lá, você não vai ganhar mesmo."
— Lotaro…
— Só que o desgraçado tinha uma quadra de setes. A casa veio abaixo. Acho que foi o maior jogo que a gente viu no ano. Um full de damas e um four de setes! Todo mundo ficou exictado. Tapas nas costas, berros… O síndico ligou.
— E você vai ter de pagar mil reais.
— Mil reais? Ha! Mil reais eu tinha guardado só de troco do cigarro, Ju. Eu perdi minha felicidade, você não escutou, não?
— Lotaro Francisco Fernandez de Araújo Tibiriçá! Ninguém perde a felicidade numa aposta, num jogo de pôquer entre amigos que se conhecem há trinta e cinco anos.
— Trinta e oito. E jogamos há trinta.
— Como é que alguém ia poder ficar com sua felicidade, Lotaro?
— Pois é, eu não havia pensado nisso. Mas, sabe, eu saí de lá meio cabisbaixo. E o Afrânio pulava. O Afrânio parecia uma criança. Outra criança, que o Afrânio nunca foi alegre, nem quando criança.
— Ai, ai…
— Pois é, parece loucura, mas eu não consigo mais sorrir. Eu não consigo mais querer as coisas. Eu estou deprimido.
— Você perdeu foi é o juízo, Lotaro.
— Pensa bem, Jumela, quantas vezes você me viu assim, sorumbático? Nem quando o Juventos perdia. Nem quando o Juventos caiu pra segundona.
— Mas pede pro Afrânio devolver, homem.
— Você acha que eu não tentei? Ofereci o carro em troca. Ele não quis. Disse que não se sentia assim desde o tri no México. Desde… "Eu nunca me senti assim." Foram as palavras dele. "É muito bom! Olha, Lotaro, eu não vou devolver não. Se quiser dinheiro, eu te empresto, mas não vou devolver, não."
— E o que você vai fazer, então? Ficar aí com essa cara de enterro pra sempre?
— É o jeito. Eu vou te deixar, Jumela. E vou pedir as contas amanhã. E vou trabalhar em alguma coisa muito chata e vou parar de ir ao pôquer com os rapazes.
— Você não pode estar falando sério.
— Sério é só o que serei, Jumela. Seriedade é meu segundo nome.
— Lotaro! Bombomzinho…
— Não, não sou mais seu Bombonzinho, Jujubinha. Aliás, não te chamo mais de Jujubinha. Nunca mais.
Jumela viu seu marido sair com uma valise com meias pretas, a calçadeira e o único paletó que ainda tinha condição de uso. Lotaro ainda tinha que passar na casa de Mirinha, para dizer adeus à amante.

3 Comments:
Adoro descobrir blogs sensacionais por terceiros... fontes de ar e inspiração, estes blogs cantam, aos berros, para dias lindos e outros nem tanto, que a rede está aí se fazendo enquanto a gente a faz. Valeu o riso, valeu a beleza. Assinei. Sabe lá se vou acompanhar e como vou acompanhar, mas adorei descobrir este perigo. Aliás, adoro o perigo de viver.
bjs
Outro dia tinha um cara em uma dessas dinâmicas sobre vícios, oferecendo sua angústia. Seria uma boa companhia pro Lotaro...
Lucia, carina. Sabe qu eu até "tento" me esconder?
Si, Lotaro now is a loner.;-)
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