Fuga

Frida, a saudade, quis me visitar ontem de madrugada, assim que voltei para casa. E ela não tem lá muita educação, vai chegando, vai entrando, vai abrindo a geladeira… Frida ficou, passou a noite, acordou-me para me mostrar que eu pensava em você.
Sim, mas é claro que estou fugindo. É óbvio, não te parece? Mas é só porque você me prometeu que seria difícil, que seria custoso. Você fez saber que daria trabalho e doeria bastante.
Sabe, minha tatuagem também não foi a coisa mais tranqüila do unvierso. E ainda me fez sangrar. E eu tive febre.
É, Pequena, eu me entrego porque não há mesmo outra opção. Foi o jeito que aprendi a andar — abrindo olhos e poros em diâmetros impossíveis, e arreganhando o peito de esterno serrado. Sóbrio, para sentir e lembrar.
Ri-se mais, assim. De si mesmo, mais que do resto. E ainda que tenhamos nos quase-agredido com esses "você não me conhece", é essa uma das coisas que mais nos excita, essas possibilidades infinitas que não conhecemos e fantasiamos quando estamos sozinhos, cada um em sua cama ou quando nos olhamos nos olhos e o ar parece gelatina; e as queremos mesmo sem sabê-las. Ainda que você negue.
Hipocrisia já virou adereço. Bijuteria barata e quase brega. Não lhe cai bem, nem a mim. E eu tenho fome, não vou ficar para ouvir.
Mas se você quiser andar comigo, eu faço dancinhas a cada ritmo descoberto no caos sonoro da cidade velha e faço questão de honra te arrancar ao menos um sorriso, de surpresa, por dia. Ao menos.
Sim, mas é claro que estou fugindo, mas é só porque você pediu, daquele seu jeito disfarçado de pedir sem abrir a boca e eu não poder dizer que foi idéia sua. Mas você sabe que foi.
Fujo para você não me machucar, não se machucar. Fujo porque dor só faz sentido se a gente gozar no final. Mas você levantou essa cerca de arame farpado e eletrificado, com certezas espetadas nas farpas a cada metro e meio e gansos amarrados a cada quarenta centímetros e eu nem sabia que eles são piores que cães de guarda.
Cada coisa que a gente descobre…
E foi por isso que resolvi fugir, desfilando em frente à cerca, me divertindo quando você roubava e me secava de canto de olho. De canto-de-olho é mais caro, Pequena.
Porque quando toca "So What" eu regenero e danço, bobo, e você já não consegue ficar impassível e sorri e derrama amor e um tesão porcamente disfarçado e eu poderia ser filhadaputa exatamente nesse instante. Mas a sirene atrapalha o transe e o camburão atrapalha o trânsito e não há poesia em "camburão", por mais que eu tente.
Para te dizer que vou pegar o próximo ônibus, ainda que seja o ônibus errado e eu vá parar em algum bairro estranho, um bairro que eu não conheça, que eu não conheça a língua — vou fazer amizade com o cobrador e comer um "dogão" na barraquinha da tia de um olho só.
Porque eu mandei as Moiras embora. E Baco já mandou telegrama:
UM MES PT NUNC EST BIBENDUM PT NOWHERE TO HIDE PT SAUDACOES

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