Gotejar

Encanta-me o desconforto das pessoas ao moverem-se na chuva. Tirante o velho de guarda-chuva alçado no antebraço e sua desenvoltura em guardar carteiras, capangas, porta-níqueis, óculos e abrir, enfim, o tal guarda-chuva sem que lhe escapem as sacolinhas; afora esse recuerdo do pré-guerra, embalsamado e encarquilhado, estão todos fora de seus ambientes — desalojados, emputecidos.
Exceto raros. Mormente eu, a loira; e o ancião.
O senhorzinho segue, tem seus hábitos, horários, remédios, manias. Tem um autismo que só parece possível dado um certo nível de lucidez lapidada à exaustão. Polimento exagerado que extingüiu arestas e asseverou aerodinâmica social muito próxima do que poderíamos chamar invisibilidade. Super-poderes podem, afinal, ser desenvolvidos por vontade do herói ele-mesmo, me diz: mutação auto-induzida, mudanças radicais de personalidade, talvez uma desilusão amorosa. Metaforizar o mundo é quase tão mais divertido.
O velho abre o guarda-chuva, dizia eu, que nunca teve outra cor que não preta, e segue passos de quem esqueceu o tempo. Os tempos.
À loira, como a mim, não importam ombrelli. Agasalhada e impermeabilizada, desafia as gotas e não se importa com elas. Josephine, minha companhia nesse desjejum, arrisca "Essa aí não fez chapinha. Esse cabelo é liso assim mesmo."
Quase quebrado o encantamento do biólogo-sociólogo-antropólogo-ictiólogo-observador-sub-aquático-urbano, balbucio qualquer piada e volto às minhas elaborações teóricas estapafúrdias que me dêem, hoje, um texto qualquer, ainda que inútil.
Chuva.
A loira sans-chapinha desafia gotas cada vez mais grossas, andando devagar e não escolhendo caminho de marquises e toldos. Limita-se a desviar de poças e de transeuntes. A água só lhe infunde o medo de meias molhadas. Meias molhadas não são opção aceitável. De resto, molhem-se-lhe os ossos — ela não dá a mínima.
Entretanto, há o semáforo.
Obrigada a parar, a expirar e olhar para os lados, para nós, eu e Josephine, através da vidraça da padoca, obrigada a um átimo reflexivo, deixa transparecer sua natureza de tubarão. A desenvoltura, afinal, não é natureza, é cultura. Quando para, a loira tem dez anos mais, envelhecendo a cada momento de imobilidade.
Torço para que abra o sinal. Oro pelo verde redentor antes que a loira e o velho se confundam em rugas.
E me preparo. Para pagar a conta. Para sair na chuva.

1 Comments:
Fantastique!!
Vi duas coisas no seu blog: "Prostração" e esse último. Gostei de todo o mais. Muito bom mesmo. Vou dedicar mais tempo pra ler tudo!
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