20070609

Mediocracia

Mediocracia
A menina queria apenas dar um enterro à pomba. Pomba morta, caída a meio metro do meio-fio. Sua mãe a puxava pela mão, enojada, com pressa de chegar em casa e fazer coisas desimportantes como a janta ou passar alguma camisa. Coisas meio-importantes.
— A pombinha, mamãe…
Bicho sujo, bicho morto. E mamãe, já meio morta de desistir de cada dia ali pelas dez da manhã, arrastava a vida de minissaia, meias coloridas e sapatos de boneca pelas mãos, educando uma pressa desnecessária e precoce.
Pomba morta marcando o dia frio e ensolarado — meus preferidos —, dia de andar contente de ser, não fora o aviso (pomba morta) da esperança que também deve morrer.
O bigode, o cavanhaque, os óculos escuros e a jaqueta vermelha, cuidadosamente escolhida para não ser japona, dão-me ares de assassino frio de filme de Robert Rodrigues — meio canastrão, meio canalha. Quase me levando a sério… Not.
Diligente mais na cara de mau que no cumprimento do dever, sigo matando esperanças paixões quereres saberes amores sorrisos. Gostaria de pensar que meio-que-mato e, assim, ter meia-culpa apenas, posto que essas coisas, assim como pais e bichos de estimação, têm por hábito, conquanto péssimo, morrer. E ficam por aí, morrendo com ou sem aviso, atrapalhando o trânsito ou a faxineira.
— Alô, seu Cangaro? O que eu faço com essa esperança aqui no chão da sala? É pra guardar?
Não, não guarde que daqui a pouco começa a cheirar mal. Só lembre-se de enrolar em jornais e colocar num saco plástico, o mais grosso que aí houver, que é para não machucar o lixeiro.
Sigo andando, meio confiante na minha resolução de homicida, meio que sabendo o que tenho de fazer. Meio resoluto. Meio manco, meio gordo, meio velho. Meio morto, meio vivo, gato de Schröedinger dependente da volição da meia-vida da amostra do material radioativo.
E me aventuro fora da caixa.
Morre o mundo a cada meio minuto, descrente da continuidade — mundo existente apenas em porções discretas de tempo. Meio picossegundo. Un àtimo così.
Morro eu a cada meio beijo, a cada meia vontade, definho a cada meia entrega, que despaixão é coisa de gente meio-bege-faz-parte-bom-descanso. Cheio de metades, nunca pleno, acho melhor fenecer e morrer inteiro — eu, afinal, que nunca quis pedaço.
Destarte morro também eu, que só então sou completo, inteiro, finalmente. Pois só não morre mesmo Ornette, que se ri de mim, do teu meio-amor e até de Rosario Castellanos pois Ornette nunca esteve vivo.

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